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ARTIGOS
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AS LENTES DA POESIA

 

 José Neres

 

Amarga ânsia posta em cálice.

Nenhuma das duas faces da moeda...

Nem cara, nem coroa,

Apenas o que em mim ressoa.

 (Outra face – Rosemary Rêgo)

 

 

            Muitos só conseguem conceber a poesia como um emaranhado de rimas e de soluções métricas, mesmo que a construção esteja vazia de sentido e carente de imagens. Felizmente, há também aqueles que sabem que o ato de fazer poemas não consiste apenas em alinhar palavras e forçar terminações esdrúxulas. Para tais pessoas, a Poesia é o fluir da própria essência vital de cada pessoa que lê e/ou escreve, não importando o quando, o onde e o para quem. Poesia é indefinível. Para uns, inútil; para outros, vital.

            É exatamente nesse segundo grupo que podemos encaixar (sem muito esforço) a figura de Rosemary Rego, uma jovem escritora que, dede a metade da década de noventa, vem procurando ocupar seu espaço no cenário literário maranhense e para quem o ato de passar para o Papel suas emoções  parece ser tão fundamental como o de viver, como o de sorrir, como o de sonhar.

            Dona de variadas e importantes leituras, a escritora não faz questão de esconder os caminhos trilhados rumo ás inúmeras batalhas da escrita. Em seus poemas, qualquer leitor mais atento poderá perceber as influências de Drummond, José Chagas, Manuel Bandeira, Nauro Machado, Cecília Meireles, Baudelaire e Augusto dos Anjos, entre tantos outros nomes da enorme constelação poética das letras mundiais. Porém irá enganar-se quem imaginar que a influência se transformou em mero pastiche ou em apropriação dissimulada de imagens, assuntos ou idéias. Não. De forma nenhuma. Rosemary Rego pode até respirar os ventos dos poetas acima citados, mas, ao expirar, bafeja, os leitores com suas próprias palavras, com seu próprio tino artístico e deixas suas digitais em cada verso. Ela tem consciência de que fazer poesias  é uma tarefa difícil, uma verdadeira construção de algo que talvez nunca se concretize, afinal:

O cerne da palavra basta

para que em mim o estro não saia oco.

Apenas transforme em poema

A humanidade

 

            E é essa incessante busca de transformar o Humano em palavras o diferencial dessa escritora que tem coragem de mostrar-se ora pensativa e filosófica, ora arrebatadora e sensual. Não importa o tema, o importante é que dentro de cada texto “a palavra, pulsa / grita / berra”, que o grito da palavra não seja apenas uma forma de enfeitar uma página em branco, mas sim que os “mistérios de alegorias a esconder-se / por trás do tempo” se transformem em sussurros que nos façam sonhar embalados com a melodia da “breve canção” de uma chuva caindo mansamente e celebrando “o coito que faz parir o ontem e o hoje”, mas também sirva para despertar em cada um a consciência de que a realidade pode ser apenas “a máscara de um sonho terçã”.

            Rosemary busca em seus poemas muito mais que realizar um mero exercício de busca das melhores palavras para dar vida a uma imagem, ela busca, sim, “rasgar o verso ainda que a alma se canse dos vocábulos”. E consegue. Em cada um de seus textos o grito da Poesia pode ser ouvido, basta apurar os ouvidos, para ter a certeza de que cada poemas deste livro é,

 

a meta

linguagem

do ocaso

faca decepando

o sol

de final de tarde.

 

            Só quem usa as lentes dos grandes poetas é capaz de pinçar da frieza de uma língua uma imagem que represente a essência da poesia. E Rosemary Rego parece ter conseguido umas lentes bem especiais... as de quem sabe que a poesia é mais visível no invisível da palavra, às vezes, não ditas.

 

Este texto foi publicado inicialmente como prefácio do livro O Ergástulo Gozo da Palavra, São Luís, 2004.

 

 

UMA VERDADEIRA PRISÃO DOMICILIAR

José Neres

(Correio do Estado, Campo Grande, 10.06.2017)

 

            Nos últimos anos, ou pelo menos nos últimos meses, os noticiários têm comentado bastante sobre pessoas condenadas pela justiça a penas que deveriam ser cumpridas em regime fechado em uma penitenciária, mas que conseguiram o benefício do chamado regime semiaberto, em que o apenado pode trabalhar durante o dia, devendo voltar à noite para a cela; ou mesmo em prisão domiciliar, quando é possível a pessoa trabalhar no período diurno, mas deve passar as noites, os finais de semana e feriados em seus respectivos domicílios ou em locais determinados e conhecidos pelos agentes da Lei.

           Essas notícias divulgadas cotidianamente em rádios, telejornais e nas inúmeras páginas da internet chocam as pessoas que, quase sempre, veem esses benefícios como um abrandamento de pena principal, ou uma quase premiação para quem cometeu delitos graves e que agora podem usufruir da presença de familiares e amigos muitas vezes em confortáveis casas, apartamentos ou mansões.

     Mas o que poucas pessoas têm percebido é que, independentemente de haverem ou não cometido algum tipo de crime, muitos brasileiros, mesmo sem a necessidade de ordem judicial, também já vivem em regime de prisão domiciliar há bastante tempo, tudo por conta da crescente onda de violência que assola o País, por causa da catastrófica condição econômica do trabalhador brasileiro e também pelos avassaladores índices de desemprego. Três fatores nada desprezíveis e que implicam grandes impactos na vida das pessoas de todas as faixas de renda, do mais rico ao mais pobre, com as devidas proporções.

            É impossível desprezar a influência das múltiplas violências nas práticas sociais cotidianas. As pessoas têm medo de transitar pelas ruas e, quando se aproxima o período da noite, voltam correndo para seus lares (os que têm o privilégio de terem um), trancam suas portas e janelas, enclausuram-se na sala e passam a ver mundo pelo olho mágico da tevê ou pelos aplicativos disponíveis na grande rede de computadores, assustando-se com os menores ruídos que venham do exterior. A cada nascer de dia, vem a sensação de haver sobrevivido a uma interminável guerra civil, mas também vem o medo das inseguranças que se escondem à luz do sol em todas as esquinas e cruzamentos.

            A condição econômica é outro fator que limita a liberdade do indivíduo e faz com que toda a família se recolha à casa todas as noites, sem esperança de diversão ou pelo menos de poder aproveitar as belezas naturais da cidade ou do campo. A noite deixou de ser um momento de repouso para ser a esperança de recuperar o fôlego para os afazeres laborais do dia seguinte. O dinheiro investido em diversões noturnas a sós ou acompanhado passou a ser contabilizado como perdas pecuniárias no final de mais um mês de trabalho. É mais lucrativo recolher-se ao lar torcer para um novo dia raiar.

            O trabalhador desempregado é outro que vive em prisão domiciliar. Depois de um dia inteiro em filas para cadastramento, ele sabe que deve voltar para casa e, muitas vezes com a barriga vazia, esperar pelo dia seguinte. Sua casa, à noite, torna-se não apenas um cárcere forçado para seu corpo, mas também uma prisão para seus sonhos de dias melhores.

            Dessa forma, diferentemente dos presos de justiça, que têm a prisão domiciliar como um alento, com visitas constante e até mesmo um esquema paralelo de segurança, o trabalhador brasileiro que se vê diariamente obrigado a trancar-se dentro do próprio lar, sem direito a rondas periódicas das forças legais e nem mesmo à esperança de dias melhores virão, amargam a certeza de que vivem em uma verdadeira prisão domiciliar, sem consolo de algum dia conseguirem a liberdade.

 

 

TIMBUBA: A VIDA NO SHOPPING

José Neres

 

         Uma das partes boas de festivais de cinema como o Guarnicê, realizado em São Luís do Maranhão e que este ano chegou a sua quadragésima edição, é a oportunidade que o público tem de entrar em contato com produções que não teriam espaço nos circuitos comerciais. Claro que ali, apesar da seleção, são projetados filmes de todos os matizes; dos ótimos àqueles que levam quem está na poltrona se perguntar: “o que que eu estou fazendo aqui?”. Mas, no cômputo geral, o saldo sempre é positivo, pois possibilita um mergulho no mundo das artes com a vantagem de o público poder entrar em contato direto com atores, diretores e produtores que lutam para levar cultura e diversão para todos os rincões do Brasil.

         No sábado (10.06), durante a cerimônia de premiação, apesar das diversas gafes, da incredulidade do público diante de algumas situações constrangedoras, destacando-se como um dos pontos altos a belíssima apresentação do Coral de São João, foram apresentados os vencedores das mostras competitivas. Entre esses nomes estava o do jovem Andriolli Araújo, diretor e editor do curta-metragem Timbuba – A Vida no Shopping, que merecidamente recebeu o Prêmio Assembleia Legislativa do Maranhão Mauro Bezerra (Melhor documentário) e também de Melhor documentário maranhense.

         O com duração de 00:11:37 (onze minutos e 37 segundos), a obra mostra a dureza da vida de pessoas que retiram seu sustento do lixão que dá nome ao filme. Os depoimentos são ilustrados com imagens do local, que ironicamente é chamado de Shopping, pois lá é possível encontrar tudo, desde gêneros alimentícios até eletrodomésticos, passando por roupas, brinquedos e outros produtos. Pelos vastos corredores do lixão, as pessoas transitam, dividindo espaço com os urubus, na busca pela sobrevivência.

         O diretor soube mesclar as falas dos depoentes com trechos de situações cotidianas para quem trabalha no local, mas chocantes para quem não conhece aquela realidade. Muito mais que apenas uma exposição de situações, o curta-metragem traz também denúncias imiscuídas nas cenas, ora de forma sutil, ora de modo explícito. Andriolli Araújo e sua equipe foram também muito felizes na escolha do subtítulo – A Vida no Shopping, retirado da fala do principal entrevistado, e que traz uma fortíssima carga de ironia recheada com um tom de desabafo. Os frequentadores daquele lixão, assim como os de tantos outros espalhados pelo país, procuram ali não apenas produtos que possam ser reciclados ou reaproveitados, buscam também, por mais absurdo que pareça à primeira vista, um pouco de dignidade para levarem uma vida com menos necessidade, pois nem sempre podem exercer as profissões que aprenderam, mas todos os dias devem sobreviver seja em uma selva pedra, seja em uma montanha de lixo.

         O filme é bom, com ótimas tomadas e com articulações interessantes entre começo meio e fim. O texto acaba de alguma forma dialogando com Lixo, Lixado (de Mia Couto), O Bicho (de Manuel Bandeira) e com Quarto de Despejo (de Maria Carolina de Jesus) e todas essas obras de arte podem servir para humanizar nosso olhar com relação a essas pessoas que se tornam invisível a nossos olhares que preferem passear por outros shoppings.

 

FICHA TÉCNICA: Andriolli Araújo (Direção, direção de fotográfica, montagem e edição; Marcelo Pinheiro (trilha sonora original); Karla Karoline, Lilian Avelar e Alanna Assunção (Roteiro).

 

 

ANA JANSEN EM ANIMAÇÃO

José Neres

 

         Ana Jansen é a mais famosa matriarca da cultura e da história do Maranhão. Sua vida e suas peripécias já serviram de mote para diversos estudos de cunho historiográfico e já inspirou diversos artista na produção de peças trabalho, como Ana do Maranhão, de Lenita Estrela de Sá; Quem tem Medo de Ana Jansen, de Wilson Marques; Ana Jansen, de Rita Ribeiro; Ana Jansen em Cordel, de Raimunda Frazão e Ana Jansen, “Rainha do Maranhão”, de Paulo de Paulo de Tarso, o Poeta de Tauá, entre outros. Além de aparecer como personagens em outros livros, como é o caso O Entrevistador de Lendas, de José Ewerton Neto e de Os Tambores de São Luís, de Josué Montello, romance no qual exerce importante papel.

         Essa personagem mítica e histórica ao mesmo tempo povoa o imaginário do povo maranhense e suas pitorescas aventuras e articulações políticas passaram de geração para geração sempre com muitos exageros e uma boa dose de fatalismo e de humor negro.

         Agora, em 2017, esse arsenal de produções sobre a matriarca maranhense ganha um reforço para a divulgação da figura de Ana Jansen junto ao público mais jovem, podendo servir também para atingir pessoas de lugares mais distantes e que talvez nem mesmo saibam quem é a emblemática personagem que há décadas vem influenciando a história paralela e as artes no Maranhão. Trata-se do curta-metragem A Pequena História da Lenda de Ana Jansen, uma animação produzida sob a direção de Beto Nicácio, com roteiro de Iramir Araújo, dois artistas experientes que há muito tempo vêm contribuído para a divulgação da história do Maranhão através de quadrinhos e de animações.

         O enredo é bastante simples, mas serve para compor o cenário necessário à composição da narrativa. Ao passar com seu avô por perto de uma das casas de Ana Jansen, um garoto demonstra ter medo da lendária mulher que ali morou. O experiente senhor aproveita para mostrar para seu neto algumas das muitas histórias sobre a famosa matriarca, mostrando que nem tudo o que contam sobre Ana Jansen é negativo. Como a animação é bastante curta, só deu tempo de falar de alguns famosos episódios, como, por exemplo o da escrava que foi alforriada e o famoso caso dos penicos cheios de fezes

      A animação não tem a inda agilidade de um desenho animado, em alguns momentos a cenas são estáticas com a utilização da técnica de animar apenas uma parte específica das personagens, braços e boca, por exemplo. Porém, longe e ser um defeito, isso torna o curta-metragem ainda mais autoral e demonstra que os autores sabem trabalhar com os recursos de que dispõem e que conseguem tirar das dificuldades soluções criativas.

      Mesmo tendo como público-alvo os jovens que começam a se interessar pelas histórias e estórias de nossa terra, o filme pode ser aproveitado também por quem tenha interesse em conhecer uma versão sobre o mito de Ana Jansen em uma linguagem diferente das demais. O texto é claro e didático, levando o leitor a entrar em contato com não apenas com a lenda, mas também com a possibilidade de fazer releituras e de fazer uma reflexão acerca da figura da matriarca maranhense.

       O curta-metragem foi exibido na mostra competitiva do 40º Festival Guarnicê de Cinema em São Luís do Maranhão, neste mês de junho de 2017 e vem tendo boa receptividade por parte do público que acompanha o evento, mas está disponível também na internet, conforme pode ser visto abaixo.

 

 

 

REDENÇÃO

José Neres

Professor, escritor e Membro da AML

 

Fonte da imagem: internet

 

         Quem interage com as redes sociais ou acompanha os noticiários em rádio, televisão e/ou jornais já deve ter lido ou ouvido falar do curta-metragem Redenção, dirigido em parceria por Joaquim Haickel e Neville d’Almeida, e que vem sendo laureado em diversos festivais internacionais.         

       Na página oficial de divulgação do filme, é possível seguir as indicações e os prêmios recebidos em festivais bastante concorridos e com indubitável grau de respeitabilidade entre os amantes e os profissionais da sétima arte, com possibilidade de que outros prêmios venham a se juntar aos já conquistados, pois ainda está concorrendo em diversos outros concursos.

         Como a quase totalidade da população maranhense ainda não teve acesso ao filme, algumas pessoas sempre se perguntam se Redenção é realmente um bom filme. Como fui um dos poucos privilegiados a ver o filme posso deixar aqui minhas impressões, como faço sempre com relação às artes produzidas em nosso Maranhão.

         Primeiro esclareço como consegui ver o filme. Em abril deste ano, foi realizado o I Simpósio Maranhense de Cinema, promovido pela Escola de Cinema do Maranhão. Entre os palestrantes, estava o experiente cineasta Joaquim Haickel, que depois, de uma breve conversa sobre sua produção cinematográfica, brindou o público com uma exibição do filme. Depois da projeção, surgiram alguns comentários, dúvidas, perguntas e observações.

         O filme, segundo foi dito e divulgado, foi rodado em poucos dias e surgiu como uma espécie de exercícios de interatividade entre os envolvidos no processo. Quase que às pressas o roteiro original foi readaptado, as locações foram definidas, as personagens foram distribuídas, o figurino foi providenciado e as filmagens começaram. O resultado pode ser medido não apenas pela quantidade de prêmios conquistados como pela reação da cerca de uma centena de pessoas que estava no Simpósio.

         É possível notar durante a exibição que o filme é uma mescla do talento dos dois diretores que que têm estilos bastante diferentes, mas que conseguiram uma espécie de desconcertante equilíbrio estilístico. De um lado estão a leveza e as sutilezas de Joaquim Haickel, que remetem à suavidade de Pelo Ouvido. Contrapondo-se a isso, temos a força narrativa e os impactos visuais que são marcas constantes na produção de Neville D’Almeida, como pode ser visto em Navalha na Carne. Em Redenção, essa polarização se torna bastante visível, principalmente na construção da personagem central, muito bem interpretada pela atriz Daya Ananias.

         O Enredo em si não traz grandes novidades e em alguns pontos pode até ser previsível, mas o amálgama entre a aparente ingenuidade de uma moça que tenta ganhar a vida vendendo seu corpo em um prostíbulo e a frieza calculada de suas ações merece um destaque especial. O filme é produzido em cortes esquemáticos que valorizam a passagem do tempo, freando e acelerando as ações de acordo com as necessidades do texto. A trilha sonora acompanha o drama e desfoca o centro das atenções para uma espécie de sofrimento que não é o que está visível na tela, mas sim o que está guardado na história da protagonista, sendo que suas motivações só ficam claras para quem estiver atento ao desenrolar das cenas. Uma breve distração e tudo pode estar perdido, fazendo parecer que algumas cenas não têm sentido lógico. Mas isso é culpa de quem teve a ousadia de cochilar ou se distrair durante a exibição.

         Aos poucos o ar de mistério vai se descortinando e a inocência ganha ares de barbárie, com o grotesco de um submundo que nem sempre queremos ver ganhando intensidade e sufocando tanto a plateia quanto a densidade das ações anteriores. Depois de atingir o clímax narrativo, o filme caminha para um desfecho que lembra seu início, mas com a certeza de que aquele microuniverso deve agora ser visto de outro modo – bem mais cruel do que antes.

         Claro que um filme produzido em um intervalo de tempo tão curto tem que apresenta falhas, algumas são quase imperceptíveis para quem está embalado pela narrativa. Mas, no cômputo geral, Redenção é um filme forte e denso e que merece todos os prêmios recebidos, estando de parabéns tantos os diretores quanto a produção e os atores.

         Esperemos que em breve o filme esteja disponível para que todos possam tirar suas próprias conclusões.

 

APRENDENDO COM SHARLENE SERRA

 

José Neres

(Professor e membro da Academia Maranhense de Letras)

 

            Aproximando-se o final da segunda década do século XXI, já é possível chegar-se à conclusão de que o subgênero literário que mais se desenvolveu no Maranhão, seja do ponto de vista quantitativo quanto do qualitativo, foi o voltado para o público infanto-juvenil.

            Nos últimos anos, uma boa leva de nomes – como, por exemplo, Cléo Rolim (Miguel na Terra das Cores/ O Gato que Queria ser Sapo), Diego Freire (Bumba, Nosso Boi), Natinho Costa Fênix (As Aventuras de uma gotinha D’água/ O Gatinho que não Sabia Miar) , Inês Maciel (A Menina dos Olhos de Peteca), Neurivan Sousa (O Pequeno Poeta), Assenção Lopes Pessoa (José e as Três Mosqueteiras/ A Princesa Sara e o Sapo), Márcio Almeida e Francis Cavalcanti (O Livro e o Cometa), dentre outros – se juntaram aos de autores já consagrados nesse gênero literário e começaram a traçar um novo cenário no ramo das letras maranhenses.

            Outro importante destaque nesse terreno de obras destinadas ao público infanto-juvenil é o da pedagoga, designer e escritora Sharlene Serra, que vem produzindo uma série de obras voltadas para a inclusão de pessoas com algum tipo de necessidade especial, não apenas no mundo escolar, mas também nos demais campos da sociedade. Seus livros não são destinados apenas para os estudantes, mas também para pais, professores, gestores de escolas, políticos e para todos os interessados na temática da inclusão como direito de todo cidadão, não importando a idade ou a classe social.

            Os quatros livros da Coleção Incluir publicados até agora não começam com o tradicional “era uma vez”, mas sim um denunciativo “não era uma vez/ eram várias as vezes...”, deixando claro que a temática a ser tratada não é algo que ocorre raramente, mas sim que se tratam de fatos recorrentes na sociedade. Após esse início padronizado, a escritora passa a mostrar o cotidiano de meninos e meninas que enfrentam problemas por conta de algumas diferenças físicas e/ou comportamentais.

            Em “Caminhando com Paulo” é discutido o problema da acessibilidade para quem tem alguma dificuldade de mobilidade. Em “Aprendendo com Biel”, o leitor entra em contato com um garoto que tem Síndrome de Down, o que leva muitas pessoas a afastar-se dele. A protagonista de “Olhando com Ritinha” e utiliza o Braille para ler e escrever. Já em “Ouvindo com Vitória” é a deficiência auditiva o foco de discussão, com a Língua Brasileira de Sinais recebendo um destaque especial.

            Muito mais do que apenas discutir as necessidades especiais acima citadas, Sharlene Serra, em seus livros, aponta caminhos que podem levar tais crianças a um processo de inclusão social e educacional. Além da história de ficção, no final do livro, o leitor interessado poderá encontrar também as bases legais para discutir os assuntos com mais propriedade, além de atividades lúdicas que despertam o sentimento de empatia, fazendo com que nos coloquemos no lugar de quem convive com as diferenças trabalhadas em cada volume.

            Outro ponto a ser destacado nesses livros é o protagonismo infanto-juvenil, pois não parte dos adultos a iniciativa de lutar pela inclusão, mas sim de pessoas da mesma faixa etária dos excluídos. Isso faz com que os leitores se identifiquem tanto com as personagens que apresentam alguma necessidade especial, quanto com os que apresentam os diversos tipos de preconceitos ou com os que conseguem pensar e agir além dos estereótipos.

            Os livros da Coleção Incluir não apenas divertem, mas também informam e podem ajudar a inserir jovens e adultos em uma ampla discussão sobre assuntos que até bem pouco tempo eram tidos como tabus em casa, na escola e em grande parte da sociedade.

 

 

 

O TEATRO SOCIAL DE SAMIRA FONSECA

José Neres

(Professor e membro da Academia Maranhense de Letras)

 

            Ridendo castigat mores. Essa máxima latina foi usada por teatrólogos como Gil Vicente, Molière e Artur Azevedo como forma de demonstrar que os costumes de um povo ou de uma época podem ser corrigidos pelo riso, pelo sarcasmo, pela ironia, desde que isso seja feito com arte e estilo. A literatura pode servir para despertar nas pessoas tanto o senso estético, como a consciência do estar no mundo e de perceber-se como parte integrante da imensa engrenagem social. Um bom livro é sempre um fiel companheiro que nos ensina e nos alerta, mostrando-nos caminhos alternativos para atingir nossos objetivos.

            Foi possivelmente partindo da concepção de que uma obra de arte não pode ficar restrita apenas aos conceitos estéticos, mas que também pode apresentar fatores  sociais, que a professora e escritora itapecuruense Samira Fonseca selecionou três de suas peças teatrais com temas confluentes e as enfeixou em seu novo livro intitulado Maria Passa na Frente, publicado em 2016.

            Composto por textos curtos e de fácil assimilação, o livro traz em seu bojo o olhar crítico da autora com relação a diversos aspectos sociológicos que poderiam até passar despercebidos por quem não está preocupado com as mazelas sociais, mas que chamam a atenção das pessoas atentas à vida moderna e a problemas como violência, corrupção, fraudes, etc.

            Partindo de situações cotidianas, mas com personagens pouco convencionais, a criativa autora traz em sua primeira peça uma reunião entre alguns santos e seres celestiais da Igreja Católica a fim de discutirem como amenizar os problemas da falta de segurança em Itapecuru. De forma irônica, Samira Fonseca mostra que até os santos estão com medo de transitar pelas ruas e praças do município e aproveita o texto para mapear as áreas mais perigosas da cidade. À primeira vista, a peça é apenas uma história engraçada com uma temática atual ambientada em um cenário inusitado, mas, na prática, dos risos arrancados durante a leitura do texto (ou da representação da peça) surgem diversas reflexões acerca de situação caótica pela qual todos nós passamos.

            No segundo texto, que serve também como título ao volume, um dos focos centrais é o eterno conflito entre o bem e o mal. No meio de uma conversa entre anjos e santos aparece a figura de Satanás tentando impor suas ideias, mas, ao mesmo tempo, mostrando verdades que nem sempre querem ser vistas ou ouvidas. A opção da autora de seguir as linhas conceituais amplamente utilizadas por autores como Juan del Encina, Gil Vicente e Ariano Suassuna resultou em um texto ágil e carregado de ironias nem sempre tão sutis. Novamente os problemas sociais enfrentados pelos moradores de Itapecuru ganham força e projetam uma aura sociologia que paira acima da aparente abordagem religiosa sugerida pelo título. Fica então a certeza de que o trabalho de Satanás vem sendo muito facilitado pela ação dos homens que se dizem tementes a Deus.

            Depois de investir em dois autos – peças com caráter religioso – a escritora decide fechar o livro com uma farsa – peça que explora o lado mundano da vida. Mesmo mantendo a unidade de trazer todos os textos tratando de assuntos relacionados à Igreja Católica, mantendo como locus a cidade de Itapecuru, nessa última peça, a escritora retoma o rimo de mistério que foi a tônica de seu livro de estreia. Dessa feita, é o repentino desaparecimento do padre da cidade que serve como ponto de partida para o desenrolar da trama. Dois estudantes, uma professora e um taxista acabam se interessando pelo caso e as pistas que podem levar à solução do mistério começam a ser destrinçadas. O protagonismo juvenil, a hipocrisia e a desfaçatez são três dos elementos essenciais para a construção do enredo dessa peça. O mistério em si não interessa muito dentro do contexto abordado, porém, por traz da breve investigação que norteia o texto, a autora coloca toda uma gama de críticas sociais e de observação acerca de membros de instituições que nem sempre seguem as normas que prometeram cumprir. E são essas críticas ácidas que tornam a obra mais interessante.

            Interessante notar que Itapecuru é apenas a localidade escolhida pela autora para situar suas histórias e suas críticas, mas que, ao substituir-se o nome do município pelo de qualquer outra cidade e adaptando-se os logradouros citados aos nomes de outras ruas e praças das muitas localidades de nosso imenso Brasil, a situação seria a mesma, ou seja, os problemas são os mesmos, independentemente dos lugares em que estejamos. E a arte pode servir para dar maior visibilidade a problemas que nem sempre percebemos, conforme já defendeu Paul Klee, um dos grandes expoentes da arte universal.

            Ridendo Castiga Mores. Durante todas as três peças que compõem o livro, Samira da Fonseca diverte e adverte os leitores, sem fazer esforço de tentar convertê-los a qualquer uma das ideologias religiosas que permeiam o texto. Mas as diversões não são aleatórias e/ou impensadas. Fazem, sim, parte de uma tentativa de divertir ensinando e de ensinar divertindo. A cada página, o leitor acaba percebendo que faz parte de um sistema e que é necessário tomar consciência dos perigos que nos rondam em cada esquina. E se nem os santos se sentem protegidos, o que se dirá de nós, meros mortais?

 

 

 

ISAAC DE OLIVEIRA E AS ARARAS AZUIS

José Neres

(O Estado do Maranhão, 20/02/2017)

      O Brasil é um país gigantesco, com características tão diversas, que muitas vezes se multiplica (ou de divide), dando origem a uma quantidade intermináveis de “Brasis” que nem sempre se comunicam e que quase sempre desconhecem os valores e talentos produzidos fora dos limites do olhar de cada uma dessas infinitas partes.

            Assim, excluindo-se os casos maciçamente divulgados pela mídia de massa, os artistas, as produções científicas e os caracteres culturais de uma região são totalmente estranhos aos moradores dos outros rincões do país.  Esse é o caso, por exemplo, do artista plástico Isaac de Oliveira e do Projeto Arara Azul, cujas ressonâncias talvez sejam mais visíveis, audíveis e sentidas no exterior que nos outros estados da federação.

            Nascido na Bahia, mas radicado há mais três décadas em Campo Grande (MS), depois de uma passagem em São Paulo, o artista plástico Isaac de Oliveira é um dos mais talentosos pintores das artes contemporâneas brasileiras. Dono de um estilo que mescla a suavidade de traços milimetricamente calculados com densidade de cores fortes e contrastantes, esse artista parece ter encontrado na região pantaneira a paisagem ideal para transportar às telas a exuberância de uma biodiversidade ímpar capaz de despertar múltiplas sensações nas pessoas.

            Apesar de se dedicar a vários motivos e temas, é na estilização das formas da natureza que esse poeta da tinta e dos pinceis melhor se realiza. São antológicas suas telas reproduzindo a beleza das multicoloridas floradas de ipês, assim como também são de extremo bom gosto o delineamento dos detalhes de flores, os animais silvestres e suas incursões pela nudez artística que sugerem as sutilezas das formas femininas, sem as apelações de um erotismo vazio.

            A fauna do Pantanal é outra das preferências desse artista. Dando asas à imaginação, mas sem cair na tentação de pecar pelo excesso, ele eterniza em suas telas as formas e as cores tanto de peixes quanto de aves, valorizando uma espécie de movimento estático do objeto observado, para despertar em quem veja os quadros (muitos deles disponíveis na internet) a sensação de vida, não de algo morto, parado, inerte, ou em extinção.

            Deixando a arte e partindo para o mundo das ciências, foi a partir da constatação de que as araras azuis eram mais que belas aves raras, mas sim seres em processo de extinção, que a professora e pesquisadora Neiva Guedes decidiu dedicar parte significativa de seus esforços e estudos para preservar essa espécie, dando origem ao Projeto Arara Azul e, posteriormente, ao Instituto Arara Azul, ambos respeitados mundialmente e reconhecidos como exemplos de integração entre o mundo acadêmico e a prática social em prol de um mundo melhor.

            Com sede em Mato Grosso do Sul, desse projeto não nasceram apenas artigos, dissertações e teses, pois, a partir da intervenção direta de sua idealizadora e de sua pequena equipe de colaboradores, muitas aves foram salvas, muitos ninhos foram protegidos e muitos filhotes puderam ensaiar seus primeiros voos rumo à preservação da espécie. Ou seja, nunca foi apenas uma questão de cumprir formalidades acadêmicas. A vida sempre foi o foco principal desse projeto, que embora tenha nascido voltado para uma ave em particular, preocupa-se também com a preservação de outros pássaros.  Em troca, a ciência brasileira também pôde alçar altos voos, alcançando reconhecimento e colocando no cenário mundial pesquisadores que fazem a diferença diante de um mundo em crise.

Isaac de Oliveira e o Projeto Arara Azul são dois claros exemplos de que o gigante Brasil é muito mais que o somatório dos vários “Brasis” que mal se conhecem.

 

Espaço Isaac de Oliveira

Projeto Arara Azul

 

SIMPLESMENTE GULLAR

José Neres

 

No início de 1998, eu era aluno do curso de pós-graduação em Literatura Brasileira da PUC-MG quando resolvi enviar meu primeiro artigo para ser publicado no Cadernos de Opinião de O Estado do Maranhão. Era um texto de pouco mais de vinte linhas, conforme pedia a linha editorial do jornal naquela época. Para a minha surpresa, no dia 17 de janeiro, o artigo foi publicado.  O título era “Acerca do Poema Sujo”. Estreei falando de Gullar.

                De lá para cá, publiquei centenas de textos em diversos jornais, revistas e livros, sempre revisitando a obra do grande poeta, tanto em artigos quanto em palestras e aulas. Sempre homenageei Gullar em vida. Não esperei que ele se fosse para comentar sua obra. Até que...

                Domingo. 04 de dezembro de 2016. Ao ligar a TV, o apresentador do noticiário esportivo faz uma pausa nas notícias sobre a tragédia que se abateu sobre o time do Chapecoense para dar a notícia de que havia acabado de falecer o poeta maranhense Ferreira Gullar, um dos mais importantes nomes das letras brasileiras da segunda metade do século XX até nossos dias. Imediatamente, as redes sociais foram inundadas de homenagens ao polêmico escritor que deixou para a eternidade uma produção intelectual que o fez reconhecido em todo o mundo como poeta, tradutor, crítico de arte, roteirista, cineasta, compositor, contista e cronista.

                Ao nascer, o poeta recebeu o singelo nome de José Ribamar Ferreira, mas logo no início de sua carreira literária, fazendo uma junção estilizada dos sobrenomes das famílias de seu pai e de sua mãe, passou a assinar seus trabalhos com o sonoro nome de Ferreira Gullar. Com o tempo, no entanto, nem mesmo as pessoas precisavam recorrer ao nome completo para identificar o estilo e a força poética de um homem que se construiu de versos, se vestiu de poesia e que encontrou nas palavras uma forma de eternizar-se em forma de livros, sons e silêncios. Gullar, simplesmente Gullar virou sinônimo de Poesia.

                Homem sempre ligado às inovações artísticas de seu tempo, mas com o olhar voltado para os limites do que ainda poderia surgir, Gullar se envolveu em diversas polêmicas com os mais diversos autores e sobre temas que nem sempre foram bem compreendidos pelos envolvidos nas contendas ou pelos observadores da cultura em geral. Inquieto, participou ativamente de movimentos como Concretismo e Neoconcretismo, publicou literatura de cordel, ganhou inúmeros prêmios, concorreu ao Nobel de Literatura, foi contestado por alguns e amado por muitos.

                Mas dificilmente alguém poderá negar as qualidades literárias de Ferreira, tanto em prosa quanto em verso. Sua poesia tem o dom tanto de agradar aos intelectuais quanto de tocar a alma das pessoas que poderiam ser consideradas simples. Nela é possível encontrar a suavidade de “cantiga para não morrer” e a densidade social de “A Bomba Suja”; o conflito existencial de “Traduzir-se” e as diversas homenagens a escritores como Clarice Lispector e Mário de Andrade.

                Seu longo “Poema Sujo”, que saiu das entranhas da memória e atingiu a sonoridade de um grito de dor, esperança e saudade, foi considerado por alguns críticos como uma espécie de nova Canção do Exílio. Nesse livro, o teor político se mesclou aos aspectos mnemônicos, resgatando um país e uma cidade que se escondem dentro de quem só se podia se apegar às palavras para resgatar sua própria história.

                Ao longo de décadas, muitos casais se apaixonaram ao som de “Borbulhas de Amor”, passaram horas vendo as aventuras destrinçadas em “Carga Pesada”, mas também tiveram a chance de discutir arte e política a partir de suas inflamadas crônicas reproduzidas em diversos jornais. Gullar, por seu trabalho, fez-se verbo, fez-se verso, fez-se música, fez-se poesia... E sua história o fará eterno.

 

Meu textos sobre Ferreira Gullar

  1. Acerca do Poema Sujo (O Estado do Maranhão, 1998)
  2. As Muitas Vozes de Gullar (O Estado do Maranhão, 1999)
  3. Gullar e o Cordel Social (Revista DeRepente, 1999)
  4. Um Poema em Versos Sujos (No livro O Discurso e as Ideias, 2002)
  5. Gullar no Olhar de Quiroga (O Estado do Maranhão, 2010)
  6. Poema Sujo e Cidade Limpa - com Susane Martins (Jornal Pequeno, 2013)
  7. Ferreira Gullar em Ritmo de Cordel (Conhecimento Prático Literatura, 2015)
  8. Dor e Engajamento Social (No livro Na Tábua de Papel, 2010)
  9. Dor e engajamento Social (No livro Na Trilha das Palavras, 2015)
  10. Poesofia: Reflexões e Digressões sobra a poesia maranhense (no livro Trechos de um Diálogo demorado, 2016)

 

 

MEIO AMBIENTE EM SUAVES CRÔNICAS

José Neres

(Publicado em O Estado do Maranhão, 16 de novembro de 2016)

                Quando em 1977, foi firmada a Declaração de Tbilisi, ficou estabelecido que “a Educação Ambiental deve abranger pessoas de todas as idades e de todos os níveis, no âmbito formal e não formal”, ou seja, essa declaração internacional, deixa claro que todas as pessoas são, de alguma forma, responsáveis pela preservação do meio ambiente e pela divulgação de ideias que possam ajudar a melhorar a vida na Terra.

                Hoje, cerca de quatro décadas depois que a citada Declaração foi assinada, mesmo com poucas pessoas atentando para o fato, o planeta Terra está agonizado e, em seu lento sofrimento, envia inúmeros pedidos de socorro para que o Homem deixe de maltratar o ecossistema e passe a dar mais atenção aos sinais de degeneração que poderão levar à extinção de diversas espécies, inclusive da humana, em pouco tempo.

                Devastações, uso inadequado dos recursos hídricos, incêndios em florestas, poluição e descarte impróprio de resíduos sólidos na natureza tornaram-se tão corriqueiros nas últimas décadas que deixaram de ser notícia, tornando-se partes essenciais da chamada vida moderna. Tudo ficou tão normal que, às vezes, temos que apelar para a arte a fim de perceber o que cada vez mais se torna invisível aos olhos, talvez pelo excesso de visibilidade.

                Diversas são as formas pelas quais podem ser divulgadas as ideias de uma Educação Ambiental que busque preservar a vida no planeta. A literatura é um desses instrumentos que podem ser utilizados para solidificar ou mesmo despertar a consciência ambiental nas pessoas. E é esse o interesse do poeta, teatrólogo e prosador Ivan Sarney em seu mais recente livro, intitulado O Congresso das Garças (AML, 2016, 318 páginas).

                O livro é composto por sessenta crônicas que têm como foco central a Natureza em suas diversas nuances, sem descuidar de um estilo poético, mas que não deixa de ser contundente ao chamar atenção para diversos aspectos da degradação da Natureza patrocinada pela própria sociedade, que, na prática, depende dos recursos naturais para sobreviver e, contraditoriamente, destrói a cada dia sua principal fonte de vida.

                Como todo bom cronista, Ivan Sarney aproveita situações cotidianas para, a partir delas, adentrar à verdadeira temática desejada. Um passeio pela Lagoa da Jansen, uma borboleta amarela que passa diante dos olhos, uma notícia de televisão, um pregoeiro que passa anunciando seus produtos ou até mesmo uma gota d’água na vidraça da janela... tudo pode servir de mote para o prosador desenvolver suas ideias sobre as relações nem sempre harmônicas entre o homem e o meio ambiente.

                As crônicas de O Congresso das Garças são leves, bem escritas e podem servir como ponto de partida para discussões a respeito de diversas questões ambientais como as influências antrópicas no ecossistema, o aumento da temperatura, preservação ambiental, comportamentos dos animais e muitos outros. Todas as temáticas do livro encontram-se interligadas pela preocupação com o futuro do homem na face da Terra. A busca de alternativas viáveis para um desenvolvimento sustentável parece ter sido a força motriz que coordenou a seleção de textos para a composição do livro.

                A cada crônica, o leitor pode perceber que, embora o ser humano seja importante, ele não pode ser visto como o único elemento vital da cadeia ecossistêmica que norteia todas as formas de existência. Com esse livro, Ivan Sarney presta uma importante contribuição para todas aquelas pessoas que se preocupam com o presente pensando também no futuro. Afinal de contas, para que tenhamos um amanhã, é preciso proteger o meio ambiente contra nós mesmos.

 

 

A Geometria do Lúdico

José Neres

 

 

            Dizem que no Maranhão todo mundo se considera, pelo menos em alguns momentos, poeta. Anualmente, inúmeras obras são escritas e diversas delas conseguem sair da gaveta e alçam à condição de livro impresso. São poucas, porém, as que conseguem atingir os status de trabalho de boa ou pelo menos razoável qualidade literária. Há casos em que apenas o autor e seus familiares conseguem ver alguma tessitura poética naquelas páginas encadernadas...

            Há casos, contudo, em que o autor realmente merece ser chamado de poeta e consegue transpor para o papel suas ideias, seus sentimentos e suas impressões sobre o mundo em forma de versos bem elaborados e com boas soluções artísticas, fazendo com que o leitor mais exigente perceba que naquela página não há apenas um amontoado de palavras, mas sim um caminho sedimentado para as emoções poéticas.

            Entre esses escritores que costumam sair da mera construção em série de poemas e conseguem atingir a esfera da poesia está Weliton Carvalho, autor de "Travessia sem Fim", "Descobrimento do Explícito", "Sustos do Silêncio", "Tempo em Conserva" e "Geometria o Lúdico", um alentado volume com mais de 600 páginas e que reúne, além dos três últimos livros acima citados, trazendo ainda outros trabalhos até então inéditos: "A Poesia Sorrindo", "Sinfonia da Solidão" e "Escandalosa e Lírica".

            Dono de excelente dicção poética, Weliton Carvalho é capaz de transitar com a mesma desenvoltura por temas diversos como engajamento social, erotismo, lirismo e metalinguagem, por exemplo. No entanto, essa diversidade de temas não faz com que o poeta pareça superficial em suas abordagens, pois o trabalho poético-linguístico por ele perpetrado vai além de forçar as palavras em um contexto frasal. Weliton Carvalho em seus versos procura sempre conter a verbosidade sem comprometer a construção das imagens poéticas e sem apelar para construções esdrúxulas que apenas sirvam para chamar chocar o leitor, mas sem conteúdo aproveitável.

            Por trazer um apanhado geral da produção do autor em poesia até 2008, "Geometria do Lúdico" (Sotaque Norte: 670 páginas) é o livro mais recomendado para quem deseje entrar em contato com o conjunto da obra de Weliton Carvalho. Nesse livro, o leitor poderá encontrar desde os versos de caráter mais social de alguns poemas até a explosão de sensualidade e erotismo de um livro inteiro dedicado à relação física-amorosa-carnal entre dos seres que ora se mistura, ora se separam, mas que sempre se completam.

            Mas o ponto alto do livro é "Poesia Sorrindo", obra na qual o poeta maranhense pasticha e ao mesmo tempo presta grande homenagem a Mário Quintana. Em dezenas de versos sintéticos, Carvalho cria flashes da realidade interior e/ou exterior do ser humano, discutindo de forma bem humorada situações aparentemente comuns, mas que poderiam passar despercebidas por olhos menos atentos. Em versos curtos e carregados de ironia e de suavidade, o poeta trabalha o cotidiano. O celular, por exemplo, hoje um amigo inseparável de muitas pessoas, é redefinido como sendo "um chato de algibeira" (p. 331). Atento a tudo o que o rodeia, no poema Pequena Tragédia, o poeta chama a atenção para algo que se repete dia após dia: "O professor recitando Gonçalves Dias/ e os alunos preocupados com a provinha de literatura" (p. 347). Às vezes, o tom de provocação norteia o poema, como ocorre em Fogo Amigo: "Os homens não reparariam na celulite não fossem tuas amigas" (p. 362).

            De modo geral, se o livro "Geometria do Lúdico" pode até assustar os pseudo-leitores pelo número de páginas, porém bastará o verdadeiro amante da boa poesia correr os olhos pelas primeiras páginas ou mesmo abrir o livro em qualquer poema para se sentir acolhido pela essência dos verso de um homem que realmente pode ser chamado de poeta.

 

JOMAR MORAES: MESTRE DE GERAÇÕES

José Neres

(Professor, escritor e membro da Academia maranhense de Letras)

 

 

            Neste domingo, 14 de agosto de 2016, mais uma vez o Maranhão se veste de luto pelo passamento de um de seus mais ilustres filhos: faleceu Jomar Moraes, um dos maiores conhecedores e pesquisadores das letras e da cultura maranhense.

            Nascido na cidade de Guimarães, no dia 06 de maio de 1940, desde a juventude, Jomar Moraes se viu inclinado pelas palavras escritas. Mesmo entrando para o Exército, instituição na qual chegou ao posto de sargento, ele logo percebeu que sua paixão era o mundo das pesquisas e que havia nas estantes das bibliotecas todo um universo a ser explorado por alguém com habilidade e vontade de desbravar por páginas nunca dantes navegadas.

            Dono de uma memória prodigiosa, de um espírito crítico bastante lúcido e de uma inquietação típica de quem sempre se incomodou com as lacunas existentes na historiografia literária maranhense, ele tomou para si a responsabilidade de tentar sistematizar tais estudos. Dessa forma surgiram livros importantíssimos, mas infelizmente esgotados, como Apontamentos da Literatura Maranhense, Ana Jansen: a Rainha do Maranhão, Sousândrade, Vida e obra de Antônio Lobo, Bibliografia Crítica da Literatura Maranhense e Graça Aranha, entre outros títulos, além de organizar diversas edições dos perfis acadêmicos e da Revista da Academia Maranhense de Letras, de onde era há quase cinco décadas ocupante da cadeira 10.

            E foi à AML que Jomar Moraes também dedicou grande parte de suas energias de pesquisador, editando e publicando livros raros para que as novas gerações tivessem acesso a textos que poderiam se perder com o tempo e com a falta de conservação. Mesmo com a saúde abalada, sempre que podia, ela participava dos eventos e das reuniões, discutindo os temas e dando sugestões. De alguma forma, a história de Jomar Moraes e a da Academia se fundiam e a ele a centenária Instituição sempre deverá muito. Sempre que algum membro da Casa de Antônio Lobo tinha uma dúvida a respeito de alguma obra, momento histórico ou autor, era a ele que recorria.

            Mestre Moraes viveu cercado de livros e sua biblioteca particular beirava a marca de 50 mil exemplares, todos organizados e devidamente tratados. Era em sua residência que ele recebia inúmeros interessados em cultura e em pesquisar diversos aspectos tanto da literatura local quanto da universal. Ali, ele indicava caminhos que poderiam ser seguidos e depois continuava suas leituras e sua constante tarefa de escrever.

            Jomar foi também, durante décadas, um cronista dedicado a esmiuçar a cultura letrada do Maranhão, contribuindo para a divulgação de nossos valores literários e às vezes, levantando algumas polêmicas ou trazendo informações de difícil acesso para quem não tivesse tanta prática de leitura e de busca em livros diversos. Suas crônicas em O Estado do Maranhão eram lidas com atenção por quem queria mergulhar nos detalhes e efemérides da vida literária de nosso Estado.

            Em termos de sistematização de estudos, mesmo sem estar amparado pelas modernas metodologias, pode-se dizer sem exageros que Jomar Moraes é para a literatura o equivalente a que Mário Martins Meireles é para os estudos historiográficos. A obra de ambos pode até ser contestada por quem se preocupe apenas com as técnicas, mas eles foram pioneiros em um momento no qual ainda quase nada havia em termos de estudos aprofundados. Ambos deixaram suas marcas para a posteridade.

            Nossos agradecimentos ao Mestre Jomar, um homem que honrou sua terra dando o melhor de si e que deixou lições que sempre poderão ser consultadas e que ainda guiarão muitos passos. Sua obra é eterna!

(O Estado do Maranhão, 16 de agosto de 2016)

 

ZUMBIS ON-LINE

José Neres

(Professor, escritor e membro da Academia Maranhense de Letras)

 

O cenário pode ser qualquer um: shopping, praça, escola, faculdade, restaurante ou mesmo um lar... As personagens podem ser crianças, adolescentes, adultos ou idosos. O enredo será, com poucas modificações, o mesmo.

Diversas pessoas, de idades variadas, estão em um mesmo ambiente. Silêncio total. Até mesmo os sons externos parecem que não existem. As pessoas se sentam, levantam-se, andam de um lado para o outro desviando-se dos obstáculos de forma automática, sem levantar a cabeça. Comem e bebem sem atentarem para o que consomem. Voltam a andar, sentam-se, levantam-se. As cabeças estão baixas e os olhos sempre fixos em um objeto reluzente que trazem nas mãos, como se fossem extensão de seus corpos.

As linhas acima poderiam servir como uma espécie de storyline para roteiro de uma peça ou de um filme de temática non-sense. Mas não é bem assim. Esse enredo faz parte de nosso cotidiano, e as personagens são nossas conhecidas, embora nem sempre percebam a nossa existência. A ação é repetitiva e não precisa de ensaio. Tudo é natural. O objeto que todos trazem nas mãos é um celular de última geração conectado à internet.

Faz muito tempo que o aparelho de telefonia móvel deixou de ser usado para alguém falar e ser ouvido. Ele acumulou inúmeras outras funções e hoje é banco, televisão, computador, agenda, diário, rádio, caderno, biblioteca, mapa, álbum fotográfico, guia de diversões, etc. É também uma forma de silenciar amigos e de ignorar as pessoas que estão próximas, sob a desculpa de constante comunicação com quem está distante.

Nos ambientes coletivos, e nos privados também, as pessoas assumiram um comportamento que pode ser comparado ao dos hipotéticos zumbis, os seja, estão vivas, andando, mas parecem alheias à realidade circundante. Aparentemente, o mundo pode vir abaixo, desde que a conexão com a internet se mantenha estável. Rapidamente, amigos, colegas, parentes, vizinhos, as demais pessoas, e até mesmo os próprios zumbis pós-modernos, deixaram de ter cheiro e calor, passando à condição de meros contatos online (ou não) em uma agenda cada vez mais ampla.

O advento da comunicação instantânea, com suas inúmeras facilidades, acabou fortalecendo o paradoxo camoniano de sentir-se “solitário entre gentes”. No meio de uma multidão, as pessoas isolam-se diante de suas telas e acreditam que estão acompanhadas de pessoas que não estão fisicamente por ali. E, mesmo quando ocorre um encontro corpo a corpo, não é raro o caso em que cada um dos elementos empunhe seu celular e comece a bater papo usando um dos inúmeros aplicativos criados para este fim.

Sorrindo para as telinhas e fechando a cara para quem ousar interromper suas conversas virtuais, os zumbis parecem frequentar um mundo particular no qual é possível ziguezaguear por ruas e avenidas, com passos sincronizados, onde os involuntários encontrões são desculpados com monossilábicos grunhidos. Nesse perigoso mundo de silenciosas comunicações, os transeuntes escapam milagrosamente de serem atropelados por veículos cujos condutores também dirigem e teclam ao mesmo tempo e onde os guardas de trânsito, alheios às buzinas incessantes, encostam-se no poste mais próximo para receber e enviar mensagens.

No afã de uma conexão 24 horas com o mundo, recebendo informações em tempo real a todo momento, nossos zumbis não têm mais dúvida de que a vida online é a própria realidade e que tudo fora dela parece tão estranho com se voltassem para o tempo das sombras e das cavernas. Podem até perder a conexão com o mundo, mas jamais com a internet. Tudo pode ser feito online. Ficar offline é morrer.

 

ESCOLA: UM ALVO FÁCIL

José Neres

(Professor e membro da Academia Maranhense de Letras)

 

            Quando ouvimos a palavra escola, quase sempre vem à mente a ideia de crianças e adolescentes recebendo informações e conhecimentos necessários para todas as etapas do desenvolvimento físico, emocional e cognitivo do ser humano. Essa palavra deveria trazer consigo também a noção de alunos, famílias, professores, gestores e comunidade em geral irmanados no objetivo de oferecerem aos cidadãos melhores condições de vida e oportunidades de progresso para toda a nação.

            No entanto, basta abrir um jornal, assistir aos noticiários da TV, sintonizar nas ondas de uma emissora de rádio ou navegar pelas inúmeras páginas da internet para que se perceba que a imagem de escola como ponto de proteção e de aprendizagem não tem passado de uma utopia ou de uma antiga miragem.

            Escola sempre foi um alvo fácil para as investidas de bandidos e de pessoas mal intencionadas, mas durante muito tempo essa instituição foi vista como algo protegido dos perigos que rondavas as ruas, mesmo que em seus arredores roubos, assaltos, brigas e tráfico de drogas sempre tenham se feito presentes e até mesmo se inseridos no cenário escolar cotidiano e no imaginário de todos os atores sociais envolvidos no processo educacional.

            Mesmo que atos de incivilidade e de violência há décadas já façam parte da lista de chamada das escolas, recentemente a população começou a entrar em contato com a divulgação de casos de invasões, roubos, vandalismo e depredação desses prédios que antes eram vistos como zona de proteção contra as violências que imperavam nas ruas e nos demais ambientes sociais.

            Os acontecimentos de violência nas escolas deixaram de ser pontuais para fazerem parte de uma estatística que a cada dia se torna mais sombria quando deixam de serem vistas com a frieza dos números e passam a ser analisados como dados que compõem um cenário social cada vez mais desesperador.

            Ao passar pela porta de qualquer uma das escolas, é possível perceber que o medo já faz parte do uniforme dos alunos e do planejamento dos profissionais da educação. O policiamento nos arredores das instituições de ensino, que sempre foi precário, está se tornando inexistente e, pior ainda, vem sendo substituído pela presença ostensiva de marginais e de traficantes que cercam a área como se fosse um feudo ou produtivo latifúndio, tratando alunos e alunas como potenciais consumidores de seus produtos e todos os que lutam contra essa dominação como inimigos mortais que devem ser eliminados a qualquer custo.

            E nessa guerra civil que se instalou silenciosamente em cada bairro do país, a escola deixou de ser uma trincheira de proteção para aqueles que sonhavam encontrar na educação um passaporte para um futuro promissor e passou a ser um alvo fácil para quem acredita que nada tem a perder e muito a ganhar e vê na educação uma espécie de obstáculo para alcançar os fins almejados. E o número de vítimas se multiplica a cada momento.

            Enquanto escolas são invadidas, saqueadas por marginais e também sucateadas e esquecidas por administrações sem compromisso com a educação, guardas, alunos, professores, gestores e familiares... todos sem a mínima noção de como se protegerem desses insanos ataques que vêm de todos os lados ainda lutam tentando oferecer uma educação com o mínimo de qualidade para quem sonha sobreviver a esse fogo cruzado.

            Realmente a escola é um alvo fácil de ser atingido, tanto pela inércia administrativa quanto pela violência circundante, mas ela tenta resistir. Porém se não receber o tratamento adequado um dia passará a fazer parte das estatísticas de vítimas fatais de uma guerra contra o futuro.

 

A TÍTULO DE HOMENAGEM

José Neres - Escritor, Professor de Literatura Brasileira

      Era para ser uma tarde comum, como outra tarde qualquer,mas quando a noite desceu sobre Alcântara, sobre o Largo do Desterro e sobre o Cais da Sagração, e os bentivis começavam a procurar um beiral para descansar, uma notícia deixou a cidade duas vezes perdida: Josué Montello, a cabeça de ouro da vida literária maranhense,acabara de receber sua última convidada.
     Naquele momento a morte deixava de ser apenas uma sombra na parede e levava o criador de mil imagens para uma viagem fantástica por um labirinto de espelhos, deixando entre seus conterrâneos, além de mais de uma centena e meia de obras, um camarote vazio e uma escola de saudade.
     Naquela hora, como se estivéssemos no silêncio de uma confissão, tudo muda na cidade: a lanterna vermelha perde o brilho, a estante giratória pára, o fio da meada se perde, o caminho da fonte se fecha e os longos diários recebem o ponto final. Josué deixa de estar entre nós. Sua indesejada aposentadoria definitivamente chega para levá-lo para junto dos tesouros de Dom José, para viver mil aventuras de Calunga, ou para, através do olho mágico da eternidade, quem sabe na próxima noite de natal, ou numa noite de papel picado, ver Glorinha, com seu rosto de menina, recitando os versos do anel que tu me deste ou brincando com os bichinhos do circo.
      Montello, que ainda na casa dos quarenta, já dominava Cervantes e o moinho de vento, já mostrava para seu povo a beleza clássica de Ricardo Palma, Antônio Nobre, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Gonçalves Dias e Stendhal, entre outros, sempre alinhando uma palavra depois da outra, aos quase noventa anos, com as janelas fechadas, mas com a alma aberta para o infinito, põe um ponto final em sua vasta obra, que não é miragem, nem peso de papel, mas sim arte, vida, amor e dedicação.
     Então, naquele triste 15 de março de 2006, ao som dos tambores, sem precisar de um baile de despedida, Josué Montello subiu os degraus do paraíso e, em uma viagem sem regresso, sob a luz da estrela morta, os anjos em aleluia foram mostra para a pedra viva das letras maranhenses seu apartamento no céu, com uma bela varanda sobre o silêncio, de onde, enquanto o tempo não passa, ele para sempre será lembrado.

Publicado no Jornal O Estado do Maranhão em 26/03/2006.

 

PASSEANDO PELAS MORADAS DA MEMÓRIA


José Neres

 

 

 

                Para muitas pessoas, passear pelas ruas de São Luís equivale a dividir espaço com prédios antigos e deteriorados, quase na condição de escombros. Alguns veem possibilidades econômicas, outros percebem oportunidades turísticas desperdiçadas e muitos preocupam-se apenas em mapear os problemas enfrentados diariamente pela histórica cidade. Contudo, no meio dessa profusão de olhares há também quem veja a urbe e seus históricos casarões como fonte inesgotável de pesquisa.

                E foi, provavelmente, com o desejo de expandir seus olhares para além das obviedades e também para mostrar que em cada parede dos antigos prédios há mais que água, pedra e óleo de baleia, havendo também lágrimas, suores e muitas histórias, lendas e tradições, que o jovem professor e pesquisador Flaviano Menezes da Costa dedicou vários meses de sua vida à tarefa de pesquisar uma espécie de ilação entre alguns dos prédios que compõem a arquitetura de São Luís e a produção literária de diversos prosadores que ambientaram   seus livros nesses casarões.

                 O que era para ser apenas uma dissertação de mestrado, como outras tantas que, após defendidas para uma banca e para um restrito público, adormece em uma gaveta e/ou na prateleira de referência de alguma biblioteca local, ganhou alguns retoques e se transformou em um belo e interessante livro intitulado “Moradas e Memórias – O valor patrimonial das residências da São Luís Antiga através da Literatura” (EdUfma, 2015, 232 páginas).

                Dividido em quatro longos capítulos e em um apêndice, o livro mostra como diversos prosadores (Aluísio Azevedo, Clodoaldo Freitas, Humberto de Campos, João Mohana, Josué Montello, Conceição Aboud, Nascimento Moraes e Waldemiro Viana) ambientaram suas obras de ficção em locais que passam a pertencer tanto à história quanto à literatura. Porém o pesquisador não se limitou a arrolar obras, autores, personagens e prédios em uma extensa lista baseada apenas no factual. Não. Ele aproveita os aspectos históricos, geográficos e literários imiscuídos nas muitas obras lidas e analisadas para mostrar, destrinçar e discutir questões toponímicas, topofílicas, socioculturais e discursivas tanto pelo viés do olhar literários quanto pelo prisma da historiografia social e da geografia humanista cultural. O resultado é um bem elaborado painel que une diversos campos do saber em torno da preservação tanto dos bens físicos como também de uma fortuna imaterial que precisa ser protegida para que o presente e o passado possam ser refletidos em um futuro próximo ou distante.

Escrito em linguagem acadêmica, mas que não compromete sua leitura, e rico em ilustrações, o livro “Moradas e Memórias” pode servir a diversos fins que vão desde a formação de público leitor para a literatura maranhense, pois diversas obras são estrategicamente discutidas ao longo volume, até uma redescoberta da história do Maranhão a partir de seu acervo arquitetônico, passando também pela perspectiva de um turismo lítero-cultural e até mesmo para aplacar o incessante interesse por curiosidades a respeito do patrimônio e de suas peculiaridades. Mas quem não estiver interessado em nenhum desses aspectos pode se divertir (e aprender!) com o apêndice que conta um pouco da história de alguns casarões pelos quais passamos diversas vezes sem nos atermos ao glorioso passado que ali habita.

O livro de Flaviano Menezes é uma daquelas obras que fazem com que o leitor perceba que, em cada caminhada pela Cidade, é possível ir além da superfície do olhar imediatista e ver que cada prédio é constituído de fundação, paredes, cobertura, história, saudades e memórias.

 

 

NICEAS DRUMONT: UM TALENTO ESQUECIDO

José Neres

(Professor, pesquisador e membro da Academia Maranhense de Letras)

 

            Temos uma grande dívida para com alguns artistas que, depois de muito contribuírem para o sucesso de nosso Estado, foram relegados ao esquecimento. Entre esses nomes que não deveriam ser esquecidos está o de  Nicéas Drumont.

            Querido e reverenciado por toda uma geração, Nicéas Alves Martins, cujo  nome artístico era  Nicéas Drumont (1951-1990), foi um dos mais importantes nomes da música brasileira, tendo suas composições gravadas por intérpretes do porte de Sérgio Reis, Fafá de Belém, Sula Miranda, as Irmãs Galvão, Nando Cordel, Ângelo Máximo, Rosa Reis e muitos outros.

            Nascido no povoado Itaipu, em Rosário, e vindo de uma família humilde, o rapaz desde cedo demonstrou grande habilidade no trato com as palavras, pois extraía com facilidade a musicalidade escondida por trás de versos por ele mesmo inventados. De alguma forma ele sabia que aquele dom poderia servir mais do que para animar reuniões familiares e encontro com amigos.

            O talento de Niceas não ficou restrito a seu povoado, a São Luís ou mesmo ao Maranhão. Buscando projetar seu nome, ele resolveu arriscar uma carreira artística fora de sua terra. Mesmo enfrentando dificuldades financeiras e a consequente separação da família, embarcou rumo ao Rio de Janeiro, onde permaneceu por aproximadamente dois anos, enfrentando as dificuldades naturais e os obstáculos de quem contava apenas com o talento e com a vontade de vencer pela própria arte.

            Após deixar o Rio de Janeiro, o artista maranhense foi aventurar sua sorte em São Paulo, de onde conseguiu se projetar para todo o Brasil. Suas composições começaram a tocar nas rádios e ele se tornou um nome bastante requisitado por parte de diversos intérpretes que se encantavam com as apuradas letras e com as soluções melódicas do jovem compositor.

            Músicas como “A primeira Namorada”, gravada por Ângelo Máximo; “no calor de seus abraços”, na voz das Irmãs Galvão; “Dor de Cabeça”, com Gene Araújo e “Senzalas”, na imortalizada por Rosa Reis eram pedidas por públicos das mais diversas classes sociais, sem contar também que o próprio Nicéas também encantava multidões cantando sucessos como “Gavião Vadio”, “Crioulo Sonhador” e “Meu Fraco”.

            O talento com a palavra e com os sons permitiam que Nicéas transitasse por diversos gêneros musicais, do samba ao sertanejo, passando pela jovem guarda e pelo forró, com letras capazes de despertar sentimentos múltiplos que podem ir da picardia (Caldinho de Mocotó) ou até mesmo a uma reflexão política, como é o caso de “Peregrinação”.

            Após tanto sucesso, esse artista maranhense foi aos pouco sendo esquecido e suas composições, embora algumas ainda continuem tocando em rádios, hoje mais imortalizam seus intérpretes que lembram o compositor.

            Há alguns anos, o professor Inaldo Lisboa publicou o livro “Nicéas Drumont: O Gavião Vadio”, no qual intercala momentos cruciais da breve passagem de Nicéas pelo nosso mundo com fragmentos de seus principais trabalhos. Mas nem mesmo esse esforço foi suficiente para ressuscitar artisticamente esse talentoso artista. E, na falta de novas edições de seus trabalhos, quem tiver interesse em conhecer as composições desse maranhense ou de ouvir sua afinada voz, dever recorrer aos mecanismos da internet.

 

 

OS CONTOS CÁUSTICOS DE

MARCOS FÁBIO

 José Neres

 

 

            Marcos Fábio Belo Matos começou, como muitos autores, sua trajetória literária investindo no campo da poesia, com o livro Anonimato, publicado em 1990. De lá para cá, o poeta cedeu espaço para um excelente pesquisador e um competente ficcionista, que já publicou quase duas dezenas de livros e que está sempre em processo de produção de novos textos, mas que já demonstra haver optado por um estilo capaz de imprimir suas digitais principalmente em seus contos.

            E é na construção de contos que o escritor e membro da Academia Bacabalense de Letras realiza o melhor de sua produção ficcional. Embora seu estilo não busque solidificar inovações técnicas e/ou estilísticas, nem corra atrás de formas fórmulas mirabolantes de escrita, Marcos Fábio consegue manter um padrão de escrita capaz de agradar tanto ao leitor iniciante quanto aos mais exigentes em termos de obra literária.

            Agora, quase no fechar das cortinas de 2015, o escritor traz a lume o livro Contos Cáusticos (Curitiba, Editora Moura Sá, 92 páginas), contendo 43 narrativas breves, algumas brevíssimas, verdadeiros microcontos. O cerne dos textos está centrado nos encontros, desencontros e até reencontros que, sem aviso, a vida proporciona. As personagens do livro geralmente são pessoas angustiadas que vivem à procura de algo que talvez se esconda dentro de cada um.

            As narrativas são quase sempre lineares, sem malabarismos verbais, pois o interesse do autor é esmiuçar comportamentos e, às vezes, ironizar situações cotidianas, que poderiam passar de forma imperceptível caso não fossem vertidas em forma de arte. A acidez das situações perpetradas pelo autor pode tanto levar à perplexidade, como em Voz de Confiança (p. 31), quanto ao riso, conforme acontece em Pequenas Maldades (p. 64). Mas o auge do livro está na contenção verbal do autor. Usando poucas palavras, ele consegue traçar todo um cenário narrativo, mostrando que, em alguns casos, a economia de palavras escritas pode esconder uma riqueza de significados, como ocorre no significativo Separação (p.26).

 

No carro, a filha voltou para o banco da frente.

 

            As diversas faces da violência são outro tópico abordado por Marcos Fábio. Seja por causa de um bem material (O Relógio, p. 32), seja por um estupro-homicídio (Confissão, p, 27), ou por uma agressão sofrida há décadas (Tapa na Cara, p. 55), as personagens vivem pagando por suas decisões quase sempre equivocadas e que se transformam em motivo de arrependimento. Essa sensação de arrependimento é explorada em suas diversas matizes. Em alguns casos, esse sentimento vem em forma de um mero bilhete encontrado em uma caixa, como no excelente Guardados (p. 71), na descoberta da perfeição da mulher que não é sua (A Mulher Perfeita, p. 61) ou ainda no vingativo Zanoio (p. 62), mas, de uma forma ou de outra, a maioria das personagens convive com seus traumas e com seus problemas existenciais e deles não conseguem se esconder.

            De forma geral, excetuando-se o conto Tecidinho Adiposo (p. 34), que tem uma abordagem quase romântica, todos os textos do livro trazem a corrosão e a acidez estigmatizadas na pele e no comportamento das diversas personagens. Mais uma vez Marcos Fábio Belo Matos traz a público um livro saboroso e cheio de bons momentos. Uma obra para ser lida e relida. Talvez os leitores se encontrem em algumas das histórias. Tudo e possível neste mundo cáustico que dá tantas voltas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OITENTA NAUROS DE POESIA

José Neres*

Especial para o Alternativo

(Jornal O Estado do Maranhão, 02.08.2015)

 

            Praticamente todas as ruas, praças, becos e pedras de São Luís estão impregnados do olhar, dos passos e dos versos do grande poeta Nauro Machado, um dos mais argutos críticos da cidade e, ao mesmo tempo, um de seus maiores defensores.

            Dono de uma singularíssima dicção poética, Nauro Machado começou a publicar seus poemas há quase seis décadas, quando, em 1958, trouxe à luz seu livro de estreia – Campo sem Base, no qual já é possível encontrar um de seus mais emblemáticos poemas: O Parto, em cujos versos já traz uma espécie de profissão de fé do que seriam seus poemas a partir daquele momento. O então estreante já tinha consciência de que habitam no mesmo ser um Homem e um Poeta, mas que só deles um pode aspirar à completude, pois o lado poesia do ser humano está sempre em construção, “é duro e dura/ e consome toda/ uma existência”.

            A partir desse primeiro livro, uma profusão de outros textos de autoria do vate maranhense inundou a vida poética da Cidade. Mas essa inundação de palavras, imagens, cores e versos não se limitou à Ilha e acabou transbordando para outros pontos do estado, do Brasil e de outros países, tornando Nauro Machado um dos mais conhecidos poetas maranhenses do mundo a partir do último quartel do século XX e no início do XXI.

            Autodidata, Nauro Machado fez do contato com grandes nomes da literatura universal a sua escola e sua universidade. Sua poética dialoga em altíssimo nível com o que temos de melhor na obra dos grandes mestres da literatura de diversas nacionalidades e épocas. Em uma leitura mais atenta é possível perceber em seus textos traços da vivência diária com grandes poetas como Mallarmé, Cummings, Fernando Pessoa, Augusto dos Anjos, Gonçalves Dias e Ezra Pound. Mas sempre com respeito à própria identidade na construção dos versos.

            A princípio, no entanto, a obra do autor de O Exercício do Caos foi considerada estranha, principalmente dentro de sua própria província, e recebeu a pecha de hermética, indecifrável ou ininteligível. De maneira paradoxal, o mesmo autor cultuado como dono de versos geniais por críticos de altíssimo nível em diversos eventos no Brasil e no exterior era um quase desconhecido em sua própria terra. Essa distorção começou a ser corrigida quando alguns estudiosos locais começaram a perceber que a obra de Nauro Machado poderia transformar-se em um vasto campo para pesquisa e para análises.

            Estudos como os de Maria de Nazaré Cassas de Lima Lobato (A Revelação de Nauro Machado), Ricardo Leão (Tradição e Ruptura: A Lírica Moderna de Nauro Machado) e  Antônio Ailton (A Humanologia do Eterno Empenho) vieram a somar-se a outros nomes que já eram referência nos estudos literários e que admiravam a obra Naurena, como, por exemplo, Nelly Novaes Coelho, Assis Brasil, Carlos Nejar, Pedro Lyra, Fábio Lucas e Paschoal Motta, servindo como ponte de divulgação da obra do poeta e o público em geral.

            Mesmo assim, com quase meia centena de livros publicados, dezenas de prêmios e horarias recebidas e uma carreira de sucesso, muitas pessoas que diariamente cruzam com ele pelas ruas de São Luís não sabem que aquele homem de olhos claros, aproximadamente 1,70m de altura, jeito calado, olhar enigmático e passos decididos, munido de seu guarda-chuva e de sua pasta cheia de livros é uma das maiores referências poéticas da atualidade. Então as pessoas passam como se passassem por um transeunte qualquer e nem imaginam que tiveram a honra de passar por um homem que leva em sua bagagem a fina flor da poesia.

            Agora, em seu octogésimo aniversário, esse homem nascido no dia 02 de agosto de 1935, filho do senhor Torquato Rodrigues Machado e Maria de Lourdes Diniz, esposo da professora e também escritora Arlete Nogueira, pai do cineasta Frederico Machado, autor de inúmeros poemas e que enfrentou com galhardia enfermidades, indiferenças e até mesmo maledicências, ao atravessar calmamente a Praça, pode ter a certeza de que seu nome já faz parte da história de nossa literatura e de que a cidade que ele cantou em tantos versos se entranha mais e mais a cada segundo nas páginas de seus livros.

 

* Professor, escritor e membro da Academia Maranhense de Letras

O MEDO MORDE NOSSOS CALCANHARES

 

José Neres

 

                Os mais velhos contam que em um tempo talvez não muito distantes, depois de horas e mais horas de boa conversa nas calçadas ou na porta das casas, as pessoas se recolhiam e iam dormir. Às vezes esqueciam portas e janelas abertas, e mesmo assim tinham um sono tranquilo e sem sobressaltos. Naquela época, quando, durante a conversa, aparecia alguém na esquina ou no final da rua era a certeza de que chegava mais uma pessoa para engrossar o grupo ou garantia de que haveria mais piadas, mais “causos” e muitos outros minutos de boa conversa. 

              Hoje, nossa sociedade está muito diferente. Todos nós somos prisioneiros de nossos próprios lares. Os vizinhos são quase sempre desconhecidos com quem muito mal trocamos um “oi” ou um passageiro “bom dia”, “boa tarde, “boa noite”. Aquela conversa animada na calçada não existe mais, e as ruas se tornaram um deserto urbano que tem que ser atravessado com calma e sem a certeza de que conseguiremos chegar ao destino premeditado. Todos os moradores se trancam em casa e têm medo até mesmo do menor ruído que possa ser similar a tiro, explosão ou grito.

                Quando não se tornam um deserto, nossas ruas se assemelham a uma selva de asfalto (esburacado) e concreto, infestada de animais ditos civilizados e até mesmo escolarizados que espreitam os incautos transeuntes para deles, sem piedade, tirar-lhes o suor, o sangue, a vida. Depois, fogem e começam a perseguir novas vítimas em uma interminável carnificina noticiada todos os dias nas páginas policiais.

                Hoje, quando alguém desponta no início da rua ou na esquina, não é mais motivo de júbilo, mas sim de preocupação. A simples imagem de um estranho que se aproxima já é motivo mais que suficiente para que os poucos aventureiros que ainda se arriscam a ficar nas calçadas decidam entrar em suas humildes e inseguras fortalezas em busca de um refúgio.

                Muros altos, cercas elétricas, alarmes, portões reforçados de alumínio e câmeras de segurança agora fazem parte da fachada da maioria dos lares, que, rapidamente, deixaram de ser apenas residências, para se constituírem em refúgios emergenciais, porém sem a menor garantia de que dentro deles alguém esteja seguro. Da mesma forma, os carros deixaram de ser meros meios de transporte e se converteram em extensão da segurança que se deseja em casa. Revestimento fumê, travas elétricas e blindagem tornaram-se itens obrigatórios para quem almeja chegar a sua residência com o menor número possível de sustos. Isso sem contar com uma obrigatória apólice de seguro, que garanta reverter pelo menos um pouco dos prováveis prejuízos materiais, já que os danos morais e psicológicos tendem a ser irreversíveis.

                Já não temos mais o prazer de circular livremente pelas cidades. Andamos sobressaltados e a insegurança é nossa companheira inseparável. Estamos condenados a viver em prisões que construímos para serem lares, acorrentados ao medo que morde nossos calcanhares em cada movimento mais brusco. E, enquanto observamos a rua, agarrados às grades de nossas casas, das escolas, dos estabelecimentos comerciais, somos obrigados a conviver com o sorriso cínico dos marginais que, sentindo-se senhores do mundo, esperam mais uma vítima e dela tiram ao mesmo tempo o dinheiro, a dignidade e a esperança de um mundo melhor.

 

 

GRANDES PERDAS LITERÁRIAS

José Neres

(Professor de Literatura)

 

                O ano de 2014 vem sendo extremamente cruel para com as letras. Mal passamos da primeira metade do ano e já temos motivo para lamentar o passamento de diversos escritores. Como nem todos os autores falecidos faziam parte do chamado cânone literário, algumas mortes não tiveram cobertura da imprensa, mas mesmo assim tiveram a ausência sentida por parte dos admiradores de suas obras.

                Logo no início do ano, faleceu o poeta argentino Juan Gelman, homem que viveu na pele os horrores da ditadura e transformou o próprio sofrimento e a ausência dos entes queridos em versos de excelente qualidade. Outro nome de ressonância mundial que também fisicamente se calou foi o do colombiano Gabriel García Márquez, o criador do universo mágico de Macondo e ganhador do prêmio Nobel de Literatura. O sofrimento do autor de Cem Anos de Solidão foi amplamente divulgado e sua morte causou comoção entre seus leitores e o público em geral.

                A literatura nacional perdeu também alguns escritores de grande importância. De um dia para outro, perdemos o talento narrativo de João Ubaldo Ribeiro e o pensamento crítico de Rubem Alves e da poesia de Ivan Junqueira. O primeiro era conhecido por seus contos e romances extremamente bem elaborados e carregados de humor, de fina ironia e de densidade social. Livros como Viva o Povo Brasileiro, Sargento Getúlio e A Casa dos Budas Ditosos são bastante populares e inscreveram o autor na constelação dos grandes romancistas brasileiros.

                Rubem Alves por sua vez foi um dos mais marcantes educadores do Brasil. Um pensador na melhor acepção da palavra, sempre preocupado com os rumos da educação no Brasil e com as relações entre a aprendizagem e o bem-estar físico e mental. A obra desse educador, embora já seja bastante apreciada, ainda precisa ser mais estudada e analisada, para que sua essência seja posta em prática.

                Ivan Junqueira, poeta e crítico literário, dono de grande erudição e de uma verve poética inigualável, soube transformar tudo o que tocou em poesia, uma poesia viva e que transbordou as fronteiras do eu para banhar-se nas águas da universalidade. Junqueira partiu depois de prestar relevantes serviços à cultura brasileira, seja pelo talento poético, seja pelo senso crítico que lhe permitiu ser reconhecido ainda em vida como um dos grandes nomes das letras brasileiras modernas.

                Nem bem os amantes da literatura se recuperavam do choque causado pela morte dos escritores acima citados, os jornais anunciam o falecimento de Ariano Suassuna, um dos mais populares autores da literatura contemporânea brasileira. Reconhecido como um dos gênios das letras nacionais da metade do século XX e início do século XXI, Suassuna deixou-nos obras que acabaram imortalizadas no imaginário do povo, mesmo daquelas pessoas que não tiveram acesso a seus livros, pois muitos de seus trabalhos foram adaptados para a TV e para o cinema, como é o caso do Auto da Compadecida, um dos grandes sucessos da dramaturgia nacional.

                No Maranhão também diversas perdas foram sentidas neste ano. A começar pelo historiador, contista e cronista Wilson Pires Ferro, que logo no primeiro mês cumpriu sua jornada no mundo terreno, deixando-nos como herança livros como Quando eu era Pequenino e Depois que o Sol se Põe.

                Outro passamento bastante sentido foi o do cronista e porta José Chagas. Reconhecido ainda em vida como um dos maiores literatos do Maranhão e muito apreciado por seu público, seja por sua prosa, seja por seus versos magistralmente construídos, Chagas será eternamente lembrado por livros como MaréMemória e os Canhões do Silêncio, duas obras de extrema qualidade técnica e que demostram um escritor maduro e consciente de seu papel como formador de opinião, sem abrir mão da arrojada tessitura poética.

                Ubiratan Teixeira, jornalista, teatrólogo, cronista e ficcionista, foi outro nome que deixou um vazio em nossas letras. Dono de um estilo inconfundível que privilegiava as classes menos abastadas da sociedade, denunciando as mazelas sociais e dos descasos para com a cultura do Estado, o Velho Bira, como também era conhecido, imprimiu suas digitais nas letras não só do Maranhão, mas de todo o Brasil, ao produzir livros como Vela ao Crucificado e o Dicionário de Teatro, obra indispensável para quem aprecia as artes cênicas.

                Menos conhecido do grande público, mas admirado pelos amantes das letras, o prosador Ariel Vieira de Moraes também partiu neste 2014. Mesmo fisicamente distante do Maranhão há vários anos, a obra de Ariel deve ser considerada como uma das mais sólidas de nossa literatura. Livros como O Anjo Modernista, Na Hora de Deus – Amém e A Cobra Divina são verdadeiras obras-primas de um autor que ainda teria muito a oferecer para nossa cultura.

                Essas perdas são irreparáveis. Mas fica o consolo de saber que esses intelectuais em muito contribuíram para que nosso universo fosse mais belo, mais poético, mais suave e infinitamente mais cheio das ricas alegorias criadas por esses homens iluminados com o dom de transformar ideias em palavras, em magia e em vida.

                Nosso muito obrigado a todos eles.

 

VICIADOS EM COLA

José Neres

(Professor)

 

            A princípio, pelo título, o leitor poderia ser levado a pensar nas rotatórias das grandes cidades, nas quais, até hoje é possível ver crianças, adolescentes e adultos com um paninho embebido em solvente, cola de sapateiro ou qualquer outra substância tóxica. Vício este que se vê rapidamente substituído pelo devastador uso do crack. Mas não é desse triste quadro que vamos falar neste breve texto, mas sim de outro tipo de vício que nem sempre faz mal ao corpo, mas que pode ter efeito devastador para a sociedade.

            Iremos, sim, fala de pessoas, ditas estudantes, que, em qualquer grau de estudo, ficaram viciadas em usar cola (e suas variações linguísticas: pesca, sopro, “apoio pedagógico”, etc.) durante as provas ou atividades avaliativas.

            Os artifícios utilizados pelos “estudantes” a fim de fraudarem o processo vão até onde alcança a imaginação humana, ou até mesmo, em alguns casos, ultrapassam os limites impostos pela lógica.

            Há os métodos mais antigos, que hoje podem soar como rudimentares, mas que até hoje têm suas aplicabilidades: anotações em borrachas, papel escondido no tubo da caneta, fórmulas escritas na palma da mão ou outras partes do corpo, olhos esticados para a prova do colega, o conhecido sussurro de “passa a primeira”, o desesperado pedido de “passe o que tiver”, os papeizinhos que correm de mão em mão pela sala, as xérox reduzidas de textos, e assim por diante.

            Existem também os métodos mais modernos que utilizam a tecnologia para fins escusos: ponto eletrônico, mensagens de texto com gabarito das provas ou mesmo com a imagem da prova e suas respectivas respostas, acesso à internet com o intuito de localizar a questão (em casos assim, o “estudante” fica indignado se a questão foi elaborada pelo professor), celulares escondidos nas partes mais improváveis do corpo e tantos outros artifícios.

            Alguns tipos de cola (pesca) chegam a ficar na linha limite entre a criatividade e a bizarrice, como, por exemplo, alguém frequentar aulas de libras com o único intuito de, silenciosamente, comunicar-se com companheiros que estejam dentro ou fora da sala de aula, passando as respostas para os colegas ou recebendo resoluções destes; mímicas feitas para com intenção de passar respostas; supostas agressões verbais que, na verdade, são códigos previamente combinados, como é o caso de “Não está entendendo essa questão, sua anta”? (para letra A); “besta” (para letra B), “cavalo” (para letra C); “doido” (para letra D) ou “égua” (para letra E). Tudo tão bem orquestrado que é capaz de deixar o professor sem saber o que fazer diante da situação.

      Contudo, independentemente do grau de criatividade ou não durante o processo de cola em prova, é importante ter em vista que se trata de um ato condenável por diversas razões. Uma delas é que quem se inicia nessa prática possivelmente se acostumará com as aparentes facilidades de ter uma nota sem dispender esforços. Desse modo, as aparentemente inocentes colas do mundo escolar se transformarão em compra de vagas para concorridos cursos de universidades e até mesmo subornos para alguém de maior capacidade intelectual para fazer trabalhos durante o andamento do curso.

  Também há de ser levado em consideração que quem fornece a “pesca” está colaborando para tirar uma pessoa incompetente da sala de aula e levá-la para o mundo profissional. Ao mesmo tempo, os usuários de tais expedientes dão largos passos rumo a uma vida profissional medíocre e desprovida de valores éticos.

      O mais interessante é, no final de um curso em que a pessoa nada fez para merecer o diploma, vê-la fazendo um juramento diante dos próprios colegas, da família, dos professores e de uma sociedade inocente que irá receber em seu seio mais um corrupto diplomado  (Publicado em O Estado do Maranhão)