Loading...

CRÔNICA
CRÔNICA

O SILÊNCIO DO CANTADOR
José Neres

 

Meu pai era um homem forte, alegre e teimoso, dono de uma memória prodigiosa e de uma simplicidade desconcertante. Como não tive a honra de viver tanto tempo a seu lado, guardo na memória alguns bons momentos e algumas de suas frases.

Conheço poucas pessoas da minha família e até mesmo minha história é meio turva e nublada para mim. Meu pai era então uma espécie de memória externa a quem sempre recorria quando queria saber alguma coisa de meu passado e do passado dos meus familiares. Neste momento, cerca de uma década depois de sua partida para a eternidade, não pude deixar de lembrar dele quando abri o computador e li a notícia da morte de João Chiador.

Foi meu pai que me surpreendeu certa vez ao dizer que duas das maiores personalidades de nossa cultura faziam parte de nossa família: Dona Teté e João Chiador, Não conheci pessoalmente nenhum dos dois, mas sempre acompanhei seus trabalhos com admiração de sobrinho distante que não teve a honra de tomar a bênção para essas duas figuras gigantes de nossa cultura.

Meu pai contava sorrindo diversas histórias da juventude deles. Eu ouvia encantado. Nunca me interessei em saber ser era verdade ou uma história de pescador. O importante era poder saber um pouco da trajetória desses mitos da cultura popular.

Meu padrinho, que foi meu segundo pai na terra, me ensinou desde cedo a conhecer e a respeitar o talento da gente de nossa terra. Com ele conheci nomes como Alcione, João do Vale, Cláudio Fontana, Nicéas Drumont, Coxinho, Eli Carlos e João Chiador. Descobri cedo que de nossa terra brotaram tantos valores que eram respeitados em diversos lugares do mundo.

Hoje a voz de Chiador de calou para sempre, ou melhor, deixou de produzir sons para ecoar seu talento pelo infinito. Eu, respeitosamente, silencio e mentalmente faço o que nunca pude e nem mais poderei fazer: peço a bênção e esse tio e a essa tia que provavelmente nunca souberam que eu existia, mas que sempre tiveram em mim um admirador.

Fiquem em paz meu pai, meu padrinho, Teté e Chiador. E meu muito obrigado por tudo o que vocês me ensinaram, me presença ou na distância!

Campo de Batalha
 
...
E, depois de muitos anos de batalha, os dos lados não tinham mais as armas legais para combater o inimigo...
Então, em um ato de fúria totalmente sincronizado, cada grupo começou a atirar os próprios excrementos nos adversários...
Maravilhados com os efeitos produzidos, os partidários de cada um dos lados se consideravam donos da razão e esqueciam que estavam banhados de fezes atiradas pelos próprios líderes... Mas o importante é que se sentiam úteis às causas nas quais acreditavam...
Até esqueceram que estavam com fome, que o reino estava infestado por pragas, que as crianças - vistas mais como futuros guerreiros que como promotores da paz - estavam sem escola, que os idosos morriam esperando a aposentadoria, que os impostos aumentavam...
Mas a causa, qualquer que fosse ela, era mais importante que o próprio futuro.
...
E, depois de uma breve pausa para assistir ao último capitulo da novela e à decisão do campeonato, mais fezes foram atiradas, atingindo em cheio uma dignidade que quase já não mais existia...

 

 

ATENDIMENTO NOSSO DE CADA DIA

José Neres

 Fonte da imagem: Internet

Interessante como algumas pessoas lutam tanto por um emprego e logo depois demonstram péssima vontade de trabalhar e de exercer suas funções com o mínimo de qualidade. Basta passar em um posto de gasolina, um supermercado, um consultório ou qualquer outro empreendimento para sentir no ar a má vontade dos funcionários.

            Vejamos alguns exemplos para ilustrar esse atendimento nem sempre amistoso que está se tornando uma das marcas da nossa Ilha.

Um dia desses, véspera de um feriado, uma senhora, em um conhecido supermercado, perguntou para um funcionário que passava: "Meu filho, amanhã aqui vai funcionar?" O rapaz soltou um sorriso de deboche e gritou bem alto: "Nunnncaaaaaaaa!!! Deus me livre! Quero que isso aqui feche para sempre..." E seguiu seu caminho.

            Nessa mesma rede de supermercado, uma cliente reclamou pelo fato de que, em uma das filas do chamado caixa-rápido (que geralmente é o mais lento), em cuja placa estava escrito que ali só deveriam ser atendidas compras com até dez unidades, um cliente passou todo um carrinho com uma compra enorme, tomando o tempo de atendimento de cerca de uma dúzia de clientes. Diante da reclamação, a atendente, virou o rosto para o lado, fingiu que não ouviu e começou a cantarolar. Ao ser novamente interpelada, sentiu-se ofendida e novamente fingiu que nada acontecia. Procurada a gerência, o responsável pelo setor disse: “Esse pessoal é assim mesmo, trabalha sem vontade...”

Em um posto de combustível, o cliente chegou e disse: "cinquenta reais de gasolina". A atendente chegou perto do condutor e perguntou: "Dinheiro ou cartão?". Ao receber a resposta de que o pagamento seria em dinheiro, ela estendeu uma das mãos, bateu umas três vezes na palma com a outra mão e, cinicamente, disse: "Deixa eu ver o dinheiro primeiro". Diante da indignação do cliente com a forma de tratamento e com o pedido para chamar o gerente, ela recuou e decidiu abastecer o carro e só depois receber o pagamento.

Em um hospital, a atendente está ao celular aparentemente conversando com o namorado. O paciente se aproxima do balcão, ela, sem deixar de conversar animadamente, estende uma ficha, aponta para as cadeiras e faz sinal para a paciente esperar. Continua conversando... conversando... conversando... e a cliente esperando, esperando, esperando... Quando a paciente vai perguntar se ainda demorará muito, pois está sentindo muitas dores, a mocinha comunica ao interlocutor no outro lada da linha que terá de desligar pois tem alguém atrapalhando a conversa... Só então depois de quase vinte minutos, decide pedir o cartão do plano de saúde e iniciar o preenchimento da ficha, sempre com a cara fechada e olhando para o celular para ver se chegava alguma mensagem.

Na padaria, uma fila enorme e apenas duas atendentes se desdobram para atender aos pedidos com um sorriso e a agilidade necessária para diminuir o tempo de espera dos clientes. Na hora do pagamento, o caixa, aparentemente também proprietário do estabelecimento, sem nem mesmo olhar para as pessoas, de cabeça baixa, pega o dinheiro, faz as contas e literalmente joga o troco sobre o balcão de forma ruidosa, como se fizesse um grande favor em atender as pessoas que ali estavam. A cena se repete dezenas de vezes...

Esses são apenas alguns casos, cada leitor deve conhecer dezenas de outros. Interessante que em todos eles há sempre a presença de um chefe nas proximidades, que olha tudo como se tratar mal aos clientes fosse uma das especialidades da casa. E certamente é.

        E nem irei falar do atendimento pelo telefone. Isso fica para outra oportunidade!!!

 

 

 

A LUZ DO CELULAR E AS TREVAS DA EDUCAÇÃO

 José Neres

 

            Algumas pessoas acreditam que não existe vida além das múltiplas telas oferecidas pela tecnologia. A mobilidade dos celulares faz com que eles se tornem parte integrante do corpo humano. Há casos em que é mais fácil ver uma pessoa sem roupa do que sem celular... E o aparelho invadiu todos os lugares públicos que antes exigiam um pouco de silêncio e de respeito: escolas, universidades, cinemas, velórios, igrejas, etc.

            Essa reflexão é apenas para lembrar uma cena que vi recentemente. A igreja estava a menos de meia lotação. Praticamente vazia, se se levar em conta a importância do falecido. Tudo estava aparentemente normal: familiares e autoridades nas primeiras filas, os mais tímidos e discretos no fundo do templo, algumas pessoas com o olhar marejado de sofrimento, outras encantadas com a beleza do ambiente... O padre, devidamente paramentado, começou sua prédica sobre a vida e a morte, intercalando o discurso com o som de belas canções religiosas na voz de duas excelentes cantoras. Durante os ritos, algumas pessoas mal balbuciavam as palavras, outras, no entanto, aparentemente mais familiarizadas com os cânticos e com a cerimônia como um todo, disputavam a atenção a partir de diversas inflexões, nem sempre afinadas, de vozes...

            Quase no meio do templo, indiferente a tudo e a todos, uma bela mulher não se separava de seu celular e, avidamente, percorria as diversas redes sociais. Conversava silenciosamente com os amigos virtuais, digitando agilmente em seu teclado as informações que vinham a sua cabeça. Cada vez que o aparelho alertava para a chegada de uma nova mensagem, seus olhos brilhavam e seus lábios sorriam de pura satisfação. Nos raros momentos em que os amigos distantes não se comunicavam com ela, levantava a cabeça, corria os olhos pelos presentes, dava migalhas de atenção às duas crianças que a acompanhavam e voltava a manusear o aparelhinho, enviando mensagens na esperança de que alguém respondesse.

            Uma hora e vinte de cerimônia se passaram angustiantes para quem fora ali apenas como obrigação; velozmente para quem queria aproveitar um pouco mais daqueles momentos de paz. Contudo, para a moça do celular, era indiferente se todo o ritual durasse uma ou dez horas. Ela não estava ali, ela estava dentro de seu moderno aparelho, ambos –ela e o celular -  protegidos por uma capa e por uma película. A insistente luzinha do celular iluminava o rosto da jovem e a jogava cada vez mais nas trevas da ignorância. Não apenas da ignorância concebida como falta de educação, mas sim daquela em que nós tantas vezes nos jogamos, quando ignoramos as dores alheias e nos escondemos em nosso mundinho particular, onde a luz do bom senso parece não alcançar.

            Fim de cerimônia. O sacerdote faz suas considerações finais. A família do ilustre morto se pronuncia. Os presentes cumprimentam a viúva e os demais familiares. A bela moça do celular se dirige para a porta de saída acompanhada das duas crianças. Para no meio do corredor, ergue o aparelho e, alegremente, começa a digitar uma mensagem. Talvez esteja mandando as condolências para os parentes do falecido. Tudo fica mais fácil pelo celular. Talvez para ela realmente não existe vida nem morte, só um celular conectado à internet.

 

Clique aqui para ler mais um artigo nosso sobre esse mesmo assunto

 

QUANDO AS LEMBRANÇAS PASSAM DE TÁXI
José Neres

        Estava eu à porta do Teatro Artur Azevedo quando, lentamente, passou um táxi. Até aí nada além do normal. O taxista passava com o olhar atento em busca de algum possível passageiro. Vendo uma pequena aglomeração (para teatro raramente, hoje, pode-se usar a expressão grande aglomeração!), o motorista diminuiu a marcha e, de dentro de sue carro ecoou a melodiosa voz de Nicéas Drumont cantando Gavião Vadio.
    Pouco à frente, o amigo Julio Cesar da Hora​ deu uma pausa na conversa e ficou ouvindo a música. Rente à porta de entrada Gilson César​, outro dos merecidamente homenageados da noite, começou a cantarolar: "sou um gavião vadio sob o sol...". Alguns dos presentes lembraram do grande compositor maranhense precocemente falecido. Outros ficaram indagando sobre que música era aquela..Lindalva Barros​ , disse: "Escuta, é a música que estávamos ouvindo no carro". Hoje, para completar, saiu no jornal O Estado do Maranhão meu pequenino artigo sobre esse gênio da música, uma sigela homenagem aos amigos Inaldo Lisboa (que muito estuda o compositor) e Alice Moraes (que um belo dia me presentou com um vinil de Niceas Drumont).
         Lembro-me, que, longe da minha terra, foi com as músicas e com as vozes de Nicéas Drumont, Claudio Fontana, Alcione, Ely Carlos, Rogéryo Du Maranhão, Coxinho e Ubiratan Sousa​ que meu padrinho, de quem herdei a paixão pelas artes, me mostrou as belezas de meu povo... Ele me chamava para a ouvir as música e dizia: "Meu filho, esse é o som de nossa terra".
        Quando voltei para minha casa (quase adulto) fiquei espantado ao perceber que (excetuando Alcione), os demais mestres que me faziam sentir orgulhoso de ser maranhense,mesmo sem conhecer fisicamente um palmo do meu solo natal, eram quase totalmente desconhecidos por aqui. Uma pena! Mas, pelo menos para mim, ali estava o alicerce de minha identidade maranhense.
          Nunca tive talento para a música, mas aprendi a parar e apreciar quem entende do assunto. E assim que enviei o texto para o jornal, passei por algumas de nossas cada vez mais raras casas especializadas em música maranhense. Em todas elas perguntei pela obra de Nicéas Drumond. A resposta dos atendentes foi sempre a mesma: "Não sei quem é. Não temos nada dele, mas aqui tem muita coisa boa do Maranhão".
          O Táxi passou. Não pegou um passageiro. Mas, ao sumir na esquina, deixou uma bagagem de boas recordações na cabeça de muita gente