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EVENTOS

TRÊS VIZINHAS E UM MISTÉRIO NO TEATRO

José Neres

 

Fonte da imagem: Internet

         Ontem, quase no apagar das luzes, aproveitando que iria para o lançamento do livro do poeta Neurivan Sousa, fui assistir à aclamada peça As Vizinhas e o Misterioso Caso do Maníaco das Unhas, no Teatro da Associação dos Escritores Independentes do Maranhão (AMEI).

            Logo na entrada, encontrei vários amigos e conhecidos de longas datas a quem nem sempre tenho o prazer de ver. Foi bom ver uma fila de pessoas querendo assistir a um espetáculo cênico produzido e encenado por nosso povo. O público praticamente lotou o aconchegante espaço e se divertiu muito com as peripécias protagonizadas pelas três vizinhas, moradoras de um bairro de classe baixa e que têm a vida interligada por conflitos, pobreza, mistérios e hipocrisia de todos os lados.

            O texto, assinado pelo jovem Fernando Braga, mesmo apresentando certo grau de previsibilidade em seu desfecho, foi muito bem escrito e favorece à representação das atrizes, mesclando passagens do cotidiano dos moradores de São Luís com o mistério que acaba envolvendo o trio. O vocabulário é propositadamente centrado no falar maranhense, o que arranca boas gargalhadas da plateia e traz à lembrança algumas palavras que de tanto fazerem parte de nosso cotidiano só são percebidas quando expostas no palco em forma de arte.

            O cenário foi extremamente adequado ao espetáculo, com três janelas que, simbolicamente, remetem às tradicionais moradias maranhenses, com suas animadas e intermináveis conversas trocadas ou de janela em janela ou na porta de casa. E o enredo é simples e eficiente. Três vizinhas compõem o elenco: uma senhora desbocada, uma recém-convertida religiosa e uma dona de casa aparentemente tradicional. Todas elas passam por necessidades financeiras e familiares, mas tentam mostrar opulência e normalidade diante das colegas.

            As atrizes foram brilhantes em suas representações, com destaque especial para Helena Travassos, que hipnotizou a plateia com sua performance praticamente perfeita, com sua expressividade corporal e excelente domínio do movimento no palco. Na verdade, o trio se completa e cada uma delas tem seu momento próprio de brilho sem necessidade de tentar eclipsar uma à outra.

            Como o texto é relativamente curto, com uma representação de pouco mais de quarenta minutos, não dá tempo para a plateia se dispersar ou ser perder nas tramas. Quando o mistério é desfeito, em um ótimo momento de jogo de luz e voz, a peça descamba logo para a parte final, sem precisar se alongar em explicações desnecessárias. Os mínimos detalhes colocados em cada um dos sacos pretos são de uma sutileza de muita relevância para a trama e para o desfecho.

            O tema, além de tocar em pontos do cotidiano maranhense – e brasileiro também – pode ser considerado universalizante, pois trata da hipocrisia humana, e esta não tem limite de tempo ou de fronteiras.

            Peça muito boa. Espero que volte em outra temporada para que mais pessoas possam se divertir com esse mistério dividido entre as três espetaculares vizinhas suburbanas.

Créditos

PRODUÇÃO: Rodapé Companhia de Teatro/Edilson Brito

TEXTO: Fernando Braga

Iluminação e Assistente de Direção: Ivone Coelho

Sonoplastia: Marcos Belfort

Elenco: Elena Travassos, Ione Coelho e Diana Mattos

UM OLHAR SOBRE NOSSAS ARTES PLÁSTICAS

José Neres

 

       Que fazer em um shopping? Muitas pessoas não pensariam duas vezes em responder com o verbo comprar em alguns de seus tempos, pessoas e modos. Contudo, embora seja visto como principal templo pós-moderno de consumismo e de efemeridades, não são raras as vezes em que um passeio pelo shopping pode se transformar em um prazeroso momento de aprendizagem e de afinamento de gosto estético.

            Sábado passado, logo depois de comparecer ao lançamento do livro dos amigos Félix Alberto Lima, Sebastião Moreira Duarte e Benedito Buzar, parei alguns momentos para admirar a exposição de quadros de artistas maranhenses.

            Logo na entrada, fui muito bem recebido pela marchand Silvânia Tamer, a quem havia sido apresentado minutos antes. Essas são as belezas das coincidências que alegram nossa passagem pela terra! Acaba-se de conhecer a pessoa e ganha-se a oportunidade de entrar em contato com seu trabalho.

             Acompanho com certa atenção o que ocorre com as artes de meu Estado e sei que nem sempre as obras dos grandes pintores podem estar ao alcance do poder aquisitivo da maioria das pessoas. Mas sei também que olhos educados podem degustar uma exposição aberta ao público com o mesmo interesse com que aproveitamos os bons momentos da vida.

 O que vi ali vai além do que pode ser explicado com palavras... Era uma exposição coletiva de cinco extraordinários artista: Botêlho, Rogério Martins, Fransoufer, Ednilson Costa e Victor Rêgo.

Expostos com elegância, os quadros, mesmo sendo produzidos por autores de estilos diferentes e com técnicas de produção diferenciadas, pareciam dialogar entre si na busca de um equilíbrio entre o homem, a cultura e a natureza.

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Nas pinturas de Victor Rego, o contraste entre as muitas realidades que compõem o cenário urbano, seja ele no centro da cidade, em uma favela ou na fresta de modernidade que se mostra por trás de um manguezal leva o visitante a inúmeras reflexões. Os traços são uma mescla entre a delicadeza das formas sutis e a força que emana de uma realidade que não pode ser escondida.

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Eu não conhecia a obra de Ednilson Costa, mas fiquei deveras impressionado com os traços aparentemente rápidos que simulam os movimentos de seres humanos em ação, ora em uma partida de futebol, ora em uma visita à igreja. Usando cores fortes e preocupando-se com a simbologia das formas do que com o realismo das imagens, o artista brinca com as impressões de movimento que emanam de suas telas.

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Outro de quem eu já havia ouvido falar, mas de quem ainda não tinha visto as telas ao vivo é o pintor Botêlho. Seu domínio técnico do jogo de luzes e de sombras encanta a retina que quem para observar os detalhes mínimos que são explorados a partir de sobreposições de cores fortes em contraste as sobras projetadas pela fusão das imagens. O efeito disso é espetacular e realça (e multiplica) a beleza do ponto escolhido para ser artisticamente retratado.

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De todos os artistas expostos, o que eu conhecia mais de perto era Fransoufer. Pintor de formas e cores vibrantes e que explora motivos variados, que vão desde a religiosidade até aspectos culturais do Maranhão. Nos quadros expostos, a imbricação entre pássaros e seres humanos, com ênfase também na flora, demostra uma preocupação com a natureza em com a necessária harmonia entre os seres vivos.

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Rogério Martins também não me era desconhecido. Artista pelo qual nutro grande admiração, traz na exposição como motivo central as portas e janelas de nossos casarões históricos. Sua técnica leva o visitante a ter uma sensação de estar diante do prédio retratado e não de um quadro. Os ângulos escolhidos e as perspectivas aludidas remetem tanto à glória quanto à decadência de um patrimônio que precisa ser melhor preservado.

Não sei por quanto tempo ainda a exposição ficará no local. Mas tenho certeza de que quem gastar alguns minutinhos de seu precioso tempo não se arrependerá de mergulhar nas riquezas de uma arte que sempre surpreende. Como naturalmente, depois da terminada a exposição, os quadros irão para a sala de seus felizes compradores, acredito que seja uma boa sugestão guardar nas retinas e na memória um pouco desse imenso prazer que é compartilhar impressões sobre nossa arte.

Mesmo que nem todo mundo concorde, Shopping também pode (e deve) ser uma fonte de cultura.

OBS: As imagens que ilustram este artigo não correspondem às que estão na exposição. 

 

DE OZ PARA OS PALCOS

José Neres

 

 

            A queda de energia elétrica durante um ou dois minutos pode até mesmo passar despercebido, dependendo da ocasião, para a maioria das pessoas. O que fazer nesse curto intervalo de tempo? Depende. Mas e quando isso ocorre em pleno decorrer de um espetáculo teatral, com os atores no palco e toda a plateia atenta às palavras, aos gestos e à movimentação dos atores?

            Já vi um caso assim em que os atores se desculparam, o diretor pediu a palavra e disse que tão logo as providências fossem tomadas, o espetáculo voltaria. Porém não foram essas as providências tomadas neste sábado (24.02) durante a segunda sessão da peça O Mágico de Oz, no teatro da AMEI. O diretor não teve tempo de tomar a palavra e tentar contornar o problema. Não pelo fato de a energia elétrica haver retornado minutos depois, mas sim por que estavam no palco jovens atores que fizeram uso de um outro tipo de energia que nem tem faltado em nossos eventos: a criatividade.

            Os atores que estavam em atuação no momento, simplesmente ignoraram o contratempo e aproveitaram para iluminar o cenário com o brilho de quem sabe que o teatro é mágico e que o “caminho de tijolos amarelos” da vida real é cheio de obstáculo e quase sempre tem muitas pedras que precisam ser superados com trabalho, ensaios constantes, disciplina e muita dedicação.

            Como estamos em tempos de hipermodernidade, segundos depois da queda de energia elétrica, as lanternas de diversos aparelhos celulares emprestaram suas luzes para que a plateia acompanhasse a encenação. Mas o que mais chamou a atenção foi o que aconteceu no mínimo intervalo entre e escuridão total e o sacar dos celulares. Os dois atores que estavam em cena mostraram o porquê de o nome da companhia da qual fazem parte ser Grupo Teatro Improviso. Mas não agiram como um mero grupo, e sim como uma equipe, respeitaram a magia do teatro e souberam improvisar, aproveitando inclusive para pôr alguns “cacos” referentes ao incidente no decorrer da representação.

            E a peça? O Mágico de Oz é uma história já bastante conhecida que fala sobre companheirismo, coragem e busca constante do próprio eu. Sendo já muito reproduzido pela literatura, pelo cinema e mesmo pelo teatro, o enredo traz muitos desafios aos encenadores, iluminadores, diretores e atores que se proponham a levar aos palcos uma narrativa conhecida com um ar de novidade. Contudo, os responsáveis diretos pela versão que está em cartaz souberam dinamizar o espetáculo utilizando a técnica de colocar o público como parte da encenação a partir da constante busca de interação entre os atores e a plateia, formada por pessoas de variadas idades.

            Alguns detalhes quase imperceptíveis ajudaram a compor o mundo mágico de Oz no palco. Um deles é a sincronia entre as ações e as falas. Outro foi a exploração racional de um cenário minimalista que ocupa o mínimo espaço físico, mas com grande apelo visual. Em um rápido jogo de cena, o castelo do Mágico se descortina aos olhos do público, que encontra o local ao mesmo tempo em que os quatro amigos que vagam em busca de um cérebro, de coragem, de um coração e do caminho de volta para casa. Outro recurso interessante foi a presença dos dois músicos estrategicamente situados nas duas extremidades do tablado, servindo tanto para executar a trilha sonora quanto como improvisados corifeus que puxam a plateia para a interatividade com o público.

            Os atores, todos muito jovens, são um caso à parte. Reclama-se muito que a juventude está perdida, que os adolescentes de hoje são dispersos e sem talento. Mas o que se viu no palco foi algo que nega essa lógica perversa e estereotipada. O Mágico de Oz (Alexandre Wes), além de bom timbre de voz, de boa expressividade e de segurança nas falas e nas ações, demonstra grande talento musical e cênico. A Doroty (Laura Neres) estava à vontade no tablado e soube interagir com o público, mesmo ainda precisando trabalhar a espacialidade, demonstrou excelentes recursos técnicos quanto ao domínio da expressividade corporal e facial. A bruxa (Ana Lídia Sousa) explorou bem a voz e soube fazer o necessário contraponto com as demais personagens, destaque também para quem fez a maquiagem e a caracterização. O Leão (Vinícius Dominici), o Homem de Lata (Dan Barreto) e o Espantalho (Mário André Lacerda), por conta do enredo, tiveram pouca participação, mas cumpriram com brilhantismo o papel destinado a cada um deles. Mas tem que haver um destaque para o Espantalho, cujo ator demostra excelente performance vocal e utiliza muito bem o gestual e a expressividade facial. A primeira cena dele com a Doroty chama a atenção pela sincronia e pela marcação extremamente necessária para o efeito de dramaticidade e de humor.

            O coordenador geral do grupo, Marcos Dominici, e o diretor Zanto Holanda, assim como toda a equipe técnica e os atores estão de parabéns. Creio que a maior prova do sucesso desse espetáculo são o brilho nos olhos das crianças e o sorriso dos adultos que, por alguns momentos puderam, de forma metafórica, colocar os pés no caminho de tijolos amarelos e reviver um pouco da infância perdida, mas que pode ser recuperada pelo brilho mágico do teatro.

 

RIDENDO CASTIGAT MORES

 José Neres

            Juntamente com Martins Pena, França Júnior foi um dos mais importantes comediógrafos da literatura romântica brasileira. Dono de um estilo em que os costumes eram ressaltados para chamar a atenção para fatos cotidianos, mas que normalmente passavam despercebidos pela maioria das pessoas da época, o dramaturgo criava situações risíveis nas quais muitas pessoas acabavam se reconhecendo, embora possivelmente negassem servir como fonte de inspiração para essas obras que discutiam, de forma leve e suave, algumas facetas menos exploradas da sociedade do século XIX.

            Um dos maiores sucessos de Joaquim José da França Júnior (1838-1890) foi a peça intitulada “Amor com Amor se Paga”, na qual a malícia e o adultério são explorados de forma irônica, levando tanto o leitor do texto impresso quanto a plateia que frequentava o teatro às gargalhadas. Ainda hoje, mais de um século depois do passamento do autor, seus textos continuam com uma aura de atualidade e podem ser lidos ou representados com a mesma vivacidade e sagacidade com que foram concebidos.

            No entanto, como hoje temas como adultério andam tão vulgarizados, fazendo inclusive parte do cotidiano de tanta gente, parece ser anacrônico o desejo de levar aos palcos um texto que nada acrescenta ao que já sabemos sobre o assunto. No entanto essa é uma característica da boa obra de arte que, como nos ensinou Ítalo Calvino, permanece atual mesmo com o passar do tempo. Embora as cenas e acontecimentos sejam singulares, as situações são universais e não se diluíram com as constantes mudanças de costumes.

            Foi provavelmente atento a essa concepção, que o professor, encenador e diretor Marcos Dominici, resolveu trazer novamente ao palco essa comédia tão antiga e tão atual ao mesmo tempo. O espetáculo aconteceu durante vários dias no miniteatro da Associação Maranhense de Escritores do Maranhão (AMEI) e, segundo o diretor, já tem outra temporada agendada para março próximo.

            Quem espera assistir a uma mera reprodução de um texto de época tem grandes surpresas durante a apresentação. Não é á toa que o nome da companhia é Improviso. O responsável pela cenografia encontrou soluções bem elaboradas para o pequeno palco do teatro e as marcações de cena pouco interferiram na movimentação dos cinco atores que vivem as personagens: Vicente – um desajeitado e loquaz empregado que serve como fio condutor da narrativa; Eduardo e Miguel – os maridos adúlteros e enganados ao mesmo tempo; Adelaide e Emília – as belas esposas que ajudam a compor os vértices do duplo triângulo amoroso.

            Diretor experiente, Dominici soube explorar bem as características de cada um dos atores em cena, adequando os tipos físicos e as vozes para cada uma das personagens da trama. A junção do texto do século XIX com tópicos e músicas do nosso século ajudou a dar maior impacto a cenas que poderiam perder o foco se viessem tal e qual foram imaginadas por França Júnior. Não apenas por atuar como ponto de convergência das tramas, mas também pela presença de palco do ator, que facilmente tirou muitos risos da plateia, a personagem que desde o primeiro momento atrai a simpatia do público é o servo Vicente.  Mesmo com alguns breves momentos em que os atores e atrizes foram traídos pela desconcentração ou pela assincronia de algumas ações, eles souberam contornar a situação com base no bom senso e da aplicação das diversas técnicas aprendidas durante os ensaios, sem prejuízo para a encenação.

            Quem foi ver o espetáculo neste último sábado de janeiro deve ter ficado satisfeito. Pela expressão nos olhos do público e pelos fartos sorrisos que eram distribuídos para/pelos foi possível perceber que todos os objetivos foram cumpridos. É muito bom também ver nossos palcos inundados por jovens atores que encarnam as personagens e ajudam a levar mais pessoas para as salas teatrais.

            Ridendo castigat mores – talvez essa velha máxima latina não tenha servido para alguns dos presentes e nem mesmo sentida pelos presentes, mas o mais importante é que um nome como França Júnior, que estava esquecido, continua alegrando a quem aprecia um bom espetáculo e inspirando diretores, atores e encenadores na busca de levar cultura e alegria ao público em geral.

 

UM ENTRECRUZAR DE FIOS NARRATIVOS

José Neres

 

                Já fazia um bom tempo que eu estava com vontade de assistir à peça teatral As Três Fiandeiras, contudo as constantes viagens e os compromissos profissionais sempre me deixavam sem condições estar presente nos dias em que o espetáculo estava em cartaz. Já conhecia o trabalho das três atrizes e do diretor/autor da peça, o que me deixava mais curioso, pois são pessoas bem preparadas e de grande talento e, certamente, o trabalho seria de bom nível. Porém, infelizmente, os comentários disponíveis quase sempre ficavam na superficialidade do gostei/não gostei e de reprodução de fotos do evento, o que vem sendo uma prática comum em nosso Estado em que a falta de textos mais críticos é uma lacuna bastante antiga.

                Aproveitando um breve instante de folga, fui neste sábado (20.01.2018) ao recentemente inaugurado miniteatro da AMEI – Associação Maranhense de Escritores Independentes. O local é aconchegante e bastante propício à apresentação de espetáculos que não exijam grande aparato cenográfico ou tecnológico, permitindo uma maior interação entre atores e a plateia. Após as acomodações e recomendações de praxe, teve início o espetáculo.

               Desde o título, o texto da peça já remete para a mitologia, mas o jovem e talentoso dramaturgo Igor Nascimento, trouxe uma roupagem diferenciada para tratar dos diversos temas que são discutidos em cerca de uma hora de representação. Mesclando elementos mitológicos clássicos com algumas lendas do imaginário maranhense, o texto mostras relações humanas que são construídas e desconstruídas ao sabor de um aparente acaso ou de um destino sobre o qual não temos controle. Relações e fraturas familiares são expostas com bom humor e com um toque de sarcasmo, sem perder o tom de seriedade, de angústia e de reflexão, marcas constantes no texto.

                O tipo de narrativa, entrelaçada com diversos nós que se bifurcam em ritmos e histórias que se cruzam, exige bastante das atrizes e ao mesmo tempo favorece à cenografia e a um figurino transmutável pelas necessidades cênicas. Em breves mudanças de postura, mudança de ou outro adereço ou inflexão de voz, as diversas personagens entravam e saíam de cena, sem causar confusão na mente de quem estivesse assistindo ao espetáculo. Utilizando a técnica do “mise en abyme”, em que as histórias se multiplicam em um jogo teatral de sucessivos abismos, cada uma das atrizes assume diversas personagens ao longo do texto, e o próprio cenário se metamorfoseia de acordo com a cena. Dessa forma, o mesmo espaço físico alcança o valor simbólico de muitas paisagens que se constroem e desconstroem diante da plateia. Teatro, embarcação, casarão abandonado, mar e casa são alguns dos ambientes simulados ao longo do texto para a composição dos dramas que se cruzam e entrecruzam em um imaginário tear de múltiplas narrativas. O diretor, ao escolher os ornamentos e marcar as cenas, soube usar muito bem a técnica de fazer o máximo usando o mínimo de recursos.

                As três atrizes – Gisele Vasconcelos, Renata Figueiredo e Rosa Ewerton – foram espetaculares ao encarnarem personagens que exigem técnica, concentração, domínio vocal, corporeidade, expressividade facial e perfeita sincronia do começo ao fim do espetáculo. Os diversos núcleos dramáticos tecem uma grande teia de fatos e de situações que mesclam as dificuldades de manter uma companhia teatral, o jogo de egos, a necessidade de inovação constante e o desejo de seguir em uma trajetória que parece ameaçada pelas dificuldades constantes. Ao mesmo tempo em que se desenvolve a saga das atrizes sem plateia, outros dramas também ficcionais das personagens recentemente criadas dividem os espaços e atenção do público. Na peça, os fios nunca estão soltos e acabam dando origem a um intrincado tecido que pode ser chamado de fantasia, ficção, aventura, drama, ou mesmo de vida.

        Deve-se observar também o competente trabalho de iluminação, que exige sincronia entre as falas, as ações e o jogo de luzes e sobras, bem como o arranjo musical, assinado por Gustavo Correia, e executado ao vivo, potencializando a atuação das atrizes e dividindo espaço com a dramaticidade do texto.

              “As Três Fiandeiras” é uma peça que merece ser apreciada. A atuação das atrizes, a cenografia, a iluminação, a música e a direção merecem todos os aplausos.

 

FERNANDO REIS NO BANCO DA PRAÇA

José Neres

 

                No início da década de 1990, a Universidade Federal do Maranhão (UFMA) foi “invadida” por um grupo de jovens idealistas que, após um exaustivo processo vestibular, começava a batalha para alcançar o sonho de ter um diploma de curso superior. Na época, as oportunidades eram poucas e muitos daqueles jovens eram os primeiros membros da família a pôr os pés em uma Instituição de Ensino Superior. O Brasil ensaiava sair de um longo período de crise e a euforia tomava conta de boa parte da população. Mas quase todos aqueles jovens vinham de famílias humildes e sabiam que estudar poderia ser a única maneira de sair da pobreza material na qual estavam mergulhados.

                A alegria de poder frequentar um universo diferente daquele com o qual estavam acostumados contrastava com a falta de recursos comprar livros e até mesmo para pagar a passagem de ônibus diariamente ou mesmo para comprar o tíquete que dava direito a um almoço ou jantar no famoso RU (restaurante universitário). Alguns desses entraves eram resolvidos com criatividade. A falta de dinheiro para os livros e para as xerox era compensada com horas a fio na biblioteca; os pés ainda descansados substituíam os pneus do ônibus no trajeto entre o Anel Viário e o Bacanga; e muitas vezes as longas e animadas conversas sobre poemas, artes e cinema faziam esquecer a fome de comida. No intervalo entre o turno matutino e o vespertino, a sala DA (Diretório Acadêmico) transformava-se em um quartel-general onde aqueles garotos e garotas recuperavam as forças para mais uma sessão de estudos, pois, no caso do curso de Letras, havia aulas pela manhã e pela tarde.

                Aquela geração tinha tudo para ser apagada pela história. Porém havia alguns diferenciais que uniam muitos daqueles jovens: a vontade de vencer e a paixão pela leitura, pela literatura, pela escrita. Cerca de três décadas depois, vários daqueles nomes que antes pertenciam a pessoas anônimas, agora são importantes vultos de nossas letras, como por exemplo: Antônio Aílton (professor, poeta, ensaísta), Ricardo André Ferreira Martins (o hoje premiadíssimo poeta, prosador e ensaísta Ricardo Leão), Lindalva Barros (a hoje escritora e atriz Linda Barros), Dino Cavalcante (professor, ensaísta e coordenador do Curso de Letras da Ufma); Natanilson Campos (professor, poeta e prosador); Hagamenon de Jesus (professor e poeta), Karina Mualem (professora e poetisa), Bioque Mesito (poeta e professor), Ilza Cutrim (professora e pesquisadora),  Fernando Reis (professor, poeta e contista), entre tantos outros.

                Essas recordações saltaram à minha memória por duas vezes em menos de dez dias neste final de ano. Primeiro na posse de Antônio Ailton na Academia Ludovicense de Letras e, dias depois, ao encontrar o amigo Fernando Reis no lançamento de seu livro Banco de Praça, na livraria da Amei, na antevéspera de Natal. Adquiri o livro, pedi autógrafo e aproveitei para colocar a conversa em dia com esse rapaz que sempre se destacou não apenas pelo físico avantajado, mas também pelas polêmicas, pelo bom humor, pela paixão pelas letras e pela candura que sempre dispensou aos amigos.

                Banco de Praça (Editora Chiado, 2017) é uma daquelas obras gostosas de serem lidas. Os contos são límpidos e claros como uma bela conversa em uma praça por onde passam as figuras mais díspares e mais singulares ao mesmo tempo. Quase todas as narrativas estão centradas na área central da capital maranhense e as histórias mesclam doses de picardia, ironia e até mesmo do drama humano pelo qual todos podem passar a qualquer momento. Os textos são curtos e podem ser lidos em um fôlego, mas exigem alguma atenção por parte do leitor, pois não é apenas o factual que interessa na trama, mas sim o breve mergulho na essência humana. Cada personagem é um universo particular que se desdobra muitos microcosmos, formando um todo contínuo que espelha muito daquilo pelo qual passamos diariamente. O locus narrativo pode ser um bar, uma rua, o mercado ou mesmo um anônimo bar. Fernando Reis sabe que é por ali que verdadeira vida germina e que as múltiplas emoções pululam e se multiplicam. Nas páginas do livro, desfilam o povo simples, os bêbados, os paqueradores, os desamparados, as mulheres boazudas, os meninos de rua e toda uma leva de serem que passam por nós todos os dias, mas para os quais nem sempre temos olhos. Como todo artista, o contista maranhense aproveita sua arte para jogar luzes sobre problemas para os quais nem sempre damos atenção. Em contos como Antônio (p. 47), a alma humana é esmiuçada e as angústias pessoais entram em rota de colisão com os muitos problemas sociais com os quais nos deparamos a cada momento.

                Banco de Praça, apesar de não trazer inovações técnicas ou temáticas, é um livro que nos leva à reflexão sobre diversos temas e, ao mesmo tempo, diverte e ensina. Leitura recomendada para uma manhã de sol ou de chuva, para uma tarde sonolenta ou para distrair durante uma viagem de ônibus, para uma noite de insônia ou para ler diante de uma roda de amigos, ou seja, leitura para todas as horas e para todos os lugares.

                Sei que orgulho é um sentimento às vezes visto como negativo, mas confesso que tenho orgulho de pertencer a essa geração que transformou o vício da leitura e da escrita em uma bandeira em prol de dias melhores.

UMA SEMENTE CHAMADA SALIMP

José Neres

 

                Todos os dias, as letras, e as mais diversas formas de arte, se veem sufocadas pelas centenas de adversidades que contribuem para que livros, peças teatrais, exposições de artes plásticas, shows, palestras, mesas-redondas, performances e recitais se tornem itens raros ou até mesmo descartáveis na cesta básica da cultura que deveria adentrar nos lares brasileiros. Nem todos os membros da comunidade têm acesso a alguns aspectos da cultura e muitas pessoas, por não terem oportunidade de conviverem com a chamada cultura letrada, pensam que não podem frequentar alguns ambientes.

                Que fazer então para aproximar essa massa, muitas vezes manobrada por informações eivadas de preconceitos e de ideias desconexas, de algumas manifestações culturais que lhe parece estranhas ou mesmo sem sentido? Como inserir na vida de crianças, jovens, adultos e idosos as manifestações do mundo cotidiano em forma de arte, seja ela visual, táctil ou sonora? Como fazer esse pequeno repositório de cultura e entretenimento chamado livro deixar de ser um tabu e transformar-se em algo democratizado e que pode entrar em todos os lares, não importando a escolaridade, o nível social ou econômico? Arte e educação não podem servir para separar castas e classes, mas sim para unir pessoas.

                Salões, feiras, lançamentos e exposições de livros são eventos essenciais para levar a comunidade em geral a entrar em contato não apenas com livros, escritores e pensadores dos mais diversos gêneros e estilos, mas sim com todas as pessoas que produzem alguma modalidade artística. Embora quase sempre sejam seguidos da palavra livro (Feira de Livro, Salão de Livro) tais eventos são mais democráticos do que parecem à primeira vista e costumam reunir uma gama de artistas que transformam cada dia desses eventos em uma grande festa para os ouvidos, para os olhos e para a sensibilidade dos participantes.

                Foi esse misto entre erudição, cultura popular, festa, capacidade criativa e alegria que inundou a 15ª edição do Salão do Livro de Imperatriz, realizada de 27 de outubro a 05 de novembro de 2017, no Centro de Convenções da cidade. O evento, que já se tornou uma referência, contou com a importante participação de alguns membros da Academia Imperatrizense de Letras e com a presença de diversos produtores culturais e de algumas autoridades do meio intelectual e político.

                Durante dez dias, a população de Imperatriz, das cidades circunvizinhas e visitantes de outras localidades e até mesmo de outros estados da Federação puderam mergulhar em um mundo mágico constituído de letras, cores, imagens e muitos outros aspectos que levam o ser humano a se tornar cada dia mais humano.

                Entre as boas escolhas dos organizadores do Salão do Livro de Imperatriz está a escolha do nome do editor, escritor e historiador Adalberto Franklin como patrono do evento. Ele, que ao longo de sua vida dedicou-se a amar os livros, as pessoas e a cidade, recebeu essa justa e merecida homenagem. Outro acerto está na diversidade de expressões artísticas disponibilizadas ao longo dos dias. Quem se propôs a caminhas pelos largos corredores pôde escolher entre folhear/comprar livros, lanchar, encomendar caricaturas, conhecer os frutos dos trabalhos dos apenados que expuseram sua produção de móveis artesanais, fazer tatuagem de rena, aprender mágica, divertir-se com os palhaços, ouvir música, ver/adquirir telas, participar de recitais, bater papo com os amigos, assistir a palestras, comprar roupas e bijuterias ou simplesmente flanar pelo ambiente sem compromisso.

                Um local assim recebe um público eclético que nem sempre chega atraído pelos livros, mas que, diante de tantos títulos, pode sentir-se motivado para ingressar também no universo da palavra escrita. E essa é uma das funções de eventos como esse: ser receptivo a todos e mostrar que é possível construir um mundo melhor para cada um dos presentes que, sem obrigação de comprar um livro, assistir a uma palestra, participar de algum sarau ou aceitar algum estilo imposto, percebe que a liberdade consiste em respeitar e ser respeitado. Possivelmente alguns visitantes não tenham adquirido nenhum livro, lido nenhuma página, ou assistido a nenhuma palestra, mas acabaram transformando aqueles momentos em um grande Salão de festa cultura e troca de conhecimentos, de afeto e de simpatias. E isso não e pouco!

                Qual o resultado de um evento como o Salimp? Impossível saber logo depois do encerramento ou nos dias, semanas ou meses seguintes. Tudo o que envolve arte, educação e a essência humana carece de tempo oferecer seus frutos. Talvez, daqui a alguns anos, um daqueles menininhos ou uma daquelas menininhas cujos olhos brilhavam quando tocavam os livrinhos ou quando ouviram aquelas músicas agradáveis, ou quando cruzaram nos corredores com os muitos escritores que por ali circulavam percebam que aquele passeio foi decisivo para sua formação e as sementes jogadas hoje começam a dar frutos e se transformem em novos semeadores. E, quando nós não estivermos mais neste jardim cercado de folhas de livros, novas sementes brotarão em um ciclo sem fim.

                Mas essas sementes não podem ficar abandonadas. É preciso que professores, escolas, gestores públicos, amigos, conhecidos e as famílias reguem essas sementes, estimulando o contato com as artes em todas as suas nuances.

 

 

LILIA DINIZ, UMA BELA ARTISTA

José Neres

 

            Ainda no dia de finados, saindo do belo espetáculo de Urias de Oliveira, atravessamos a Praça Nauro Machado, infelizmente ainda mal cuidada e tomada pelo descaso, embora tenha passado recentemente por uma reforma, cruzei com um mar de gente, muitos rostos conhecidos, outros ainda não tinha tido o prazer haver visto, subi a ladeira e cheguei ao Espaço Chão, local aconchegante e que respira arte em suas mais diversas vertentes.

            Ali, após breve intervalo de tempo para as devidas acomodações da plateia, a mestre de cerimônias apresentou a poetisa, atriz e performer Lilia Diniz, artista que venho acompanhando faz um bom tempo, mas a quem não conhecia pessoalmente. Depois das apresentações de nível formal, teve início o espetáculo intitulado “Miolo de Pote em Cantiga de Versos”, realmente um show!

            Dona de voz e afinação invejáveis, durante cerca de uma hora, Lilia Diniz encantou o público com um misto bem equilibrado de recital de poesia, contação de “causos” e de música de boa qualidade. Em diversos momento, a artista soube tirar boas risadas da plateia, mas em grande parte do evento chamou a atenção para diversos temas que merecem toda a atenção por parte das autoridades constituídas e da sociedade em geral.

            Assuntos como relações familiares, devastação das florestas, mal uso dos recursos hídricos, falocracia e feminismo foram destrinçados com bom humor e intercalados com textos poéticos/musicais que serviram como complemento para os diversos momentos da intervenção artística.

            Já sabia que Lília Diniz tinha muito talento para a escrita, então a qualidade de seus textos não trouxe muitas surpresas. Não imaginava, porém, que todo esse talento também se refletia em outras linguagens, como a musical e a cênica. Com grande domínio vocal e perfeita interação com o público. Foi uma ótima surpresa.

Conheça um pouco mais da artista no vídeo abaixo reproduzido

 

 

E DON QUIXOTE DESCEU DA MONTANHA

José Neres

 

 

         O que fazer quando a solidão se transforma em uma companheira constante? Dormir? Ligar para os amigos? Isolar-se ainda mais? Fugir para um mundo imaginário? Transforma-se em montanha e perder contato com tudo e com todos? Nem sempre se sabe a resposta correta. Nem sempre o caminho escolhido é o mais adequado...

            A solidão pode ser um bem ou ser um mal. Pode servir como oportunidade de reflexão ou como forma de aumentar um desespero que ultrapassa até mesmo os mais recônditos limites da natureza humana. Todos nós pelo menos uma vez na vida já nos sentimos sozinhos no mundo. É nesses momentos que aprendemos a dar valor a detalhes que antes eram tidos como insignificantes.

            Mesmo um homem acostumado a enfrentar moinhos de ventos e a fazer morada em um mundo particular, como é o caso de Dom Quixote, o ilustre Cavaleiro da Triste Figura, pode um dia perder-se em um labirinto sem paredes, do qual a única esperança de saída pode ser pela condescendência de um amigo. Sem seu estimado Rocinante, sem sua imaginária Dulcineia e sem a presença de seu fiel escudeiro Sancho Panza, o que resta a um Dom Quixote preso a uma montanha, tal qual um Prometeu a cumprir sua eterna pena?

            Publicado há mais de quatro séculos, o livro de Miguel de Cervantes ainda hoje é considerado um dos principais marcos da ficção mundial. E seu protagonista é constantemente revisitado nas mais diversas linguagens.

            Neste sábado, 02 de novembro, dia de finados, quem se dirigiu ao Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, no Centro Histórico da capital maranhense, pôde entrar em contato com um Dom Quixote estilizado pelo sensível olhar do talentoso ator Urias de Oliveira.

            Apostando em um cenário minimalista, em sua possante voz, em sua expressividade corporal e na interação com o público, Urias de Oliveira, em pouco mais de uma hora, mostrou a todos os presentes que é possível desafiar a solidão e dividir bons e maus momentos tantos com conhecidos como com pessoas nunca antes vistas. Mostrou que é possível, na luta contra o monstro da solidão, trilhar caminhos entre as intrincadas veredas e transformar o isolamento das montanhas em comunidades de vida e de desprendimento.

            Em uma de suas mais brilhantes atuações, esse ator mineiro que adotou o Maranhão como lar, que quase sempre em suas peças explora mais os aspectos performático que as palavras, desta vez deixou dar vasão a toda a sua verve e trouxe à luz um Dom Quixote carregado de angústias existenciais, mas também de esperança em dias melhores. Tecnicamente, suas falas, seus cantos e suas múltiplas expressões corporais/faciais, podem ser considerados perfeitos, mesmo enfrentando as adversidades de ruídos externos.

            O texto, apesar de denso, foi talhado para ser compreendido por pessoas de todos os gostos artísticos, com mensagens de união, solidariedade de esperança. O Dom Quixote vivido por Urias é ácido, crítico, irônico e revestido de uma aura que explora o que há de mais intenso na essência do ser humano. Durante a representação, o público pôde perceber as diversas nuances interpretativas de um ator que valoriza os mínimos detalhes das técnicas vocais da impostação e da inflexão de voz e que tem consciência de que até mesmo um olhar pode fazer a diferença no conjunto da obra.

            Na representação, o público deixou de ter um papel passivo e passou a ser cúmplice dos aparentes delírios de Dom Quixote. A interpretação foi tão perfeita, que nem mesmo o barulho de um carro de som que infelizmente resolveu parar nas imediações ou mesmo o desnecessário discurso de natureza política conseguiram eclipsar o grandioso brilho de um espetáculo que teve seu apoteótico desfecho em plena rua.

            A Solidão de Dom Quixote despertou em todos os presentes uma reflexão sobre a solidão, que tantas vezes é acompanhada e cercada de pessoas que se isolam em seus mundos e se tornam montanhas incomunicáveis em um mundo em que a comunicação é mais que uma necessidade. Ao fim da tarde, Don Urias Quixote de Oliveira de La Mancha, desceu da sua montanha e seguiu seu caminho coberto de aplausos.

            Um belo espetáculo! Uma personagem perfeita! Um grandioso ator!

 

OBS: A peça fez parte da 12ª Aldeia Sesc Guajajara de Arte, que acontece de 01 a 09 de novembro do corrente ano.

 

 

NOITE DE FESTA EM ARARI

José Neres

         Neste último domingo do mês de julho de 2017, a pequena mas acolhedora cidade de Arari, na Baixada Maranhense, separada da capital por apenas 162 km, viveu uma noite esplendorosa, com uma junção perfeita entre a literatura e outras formas de arte. E, além disso, a população pôde saudar também o surgimento de mais uma poetisa que promete dar muitas alegrias ao município, ao Maranhão e ao Brasil como um todo: a jovem Samara Volpony, que na ocasião lançou seu livro individual de estreia intitulado Contramaré.

         O local escolhido para o lançamento não poderia ter sido melhor: o tradicional Colégio Arariense, que há décadas vem formando a juventude da cidade. Com uma decoração impecável e uma plateia ávida por conhecer o livro da estrela da festa, o pátio interno da escola ficou quase lotado, e quem não teve condições de ir, ou optou por ficar em casa, perdeu uma série de bons espetáculos: música ao vivo, recital de poesia, degustação de vinho e muita alegria compartilhada.

         Na plateia, além de autoridades locais, educadores, familiares e demais convidados, algumas personalidades do circuito artístico ajudaram a compor um cenário de estrelas. Circularam pelo ambiente cantores/músicos como Wilson Zara, Nosly e Ely Cruz, que não se contentaram apenas com a condição de ouvintes e subiram ao palco para compartilhar um pouco do talento com a excelente banda que animava a festa. Havia também muitos representantes do mundo das letras, escritores de gêneros diversos e que contribuíram recitando poemas do livro lançado, de autoria própria ou de outros escritores consagrados.

         Figuras como Carvalho Junior, Luíza Cantanhêde, Carlos Vinhorth, Ronilson de Sousa, Linda Barros, Paulo Rodrigues e Larissa Amorim saíram de seus respectivos municípios e foram prestigiar o debut literírio de Samara Volpony, alguns não resistiram ao ambiente que emanava poesia e aproveitaram para mostrar ao público seus dons artísticos.

         E quanto ao livro de Samara Volpony? O livro Contramaré foi editado pela conceituada Editora Patuá, com projeto gráfico e diagramação do designer gráfico Leonardo Mathias, que demonstrou muito talento e sensibilidade ao projetar o trabalho de modo que ele ficasse agradável aos olhos e até mesmo ao tato. Nas orelhas e na contracapa, Carvalho Junior, Salgado Maranhão e Mary Ferreira saudavam a chegada da nova escritora, que estreava em publicação individual, mas que já apresenta uma boa trajetória de textos em antologias e de premiações em concursos literários. Antes de entrar nos poemas, o leitor se depara com as palavras sempre equilibradas de Fernando Abreu, que assina o prefácio e se dedica a tocar em algumas sutilezas constantes na obra, o feminismo, por exemplo.

         Os poemas do livro são geralmente curtos e carregados de simplicidade e de leveza. A cidade, a memória, a condição humana, o olhar feminino e os questionamentos são as principais tônicas do livro. Em cada página o leitor se depara com uma escritora em construção, com alguns resquícios de tributo a Drummond, Cecília Meireles, mas que não se limitou rememorar e reverenciar seus mestres, mas sim que busca uma dicção poética própria.

         Samara Volpony é adepta dos versos brancos e livres, guia seus versos pela força do ritmo e pela cadência das palavras, geralmente tenta trabalhar a musicalidade das estrofes e equilibra imagens mentais e recursos acústicos sem abusar de nenhum desses elementos. A autora reconhece a simplicidade do livro, mas como é nas coisas simples que geralmente encontramos algumas das maiores expressões da beleza, podemos dizer que ela fez as escolhas corretas e, para um livro de estreia, Contramaré pode ser considerado uma bela obra. Que venham muitas outras!

VAGO RETRATO

tenho vinte e tantos anos

e não sei nada de mim

pouco importa o meu nome

me conservo assim, oculta

 

me reservo de inúteis esperas

desobrigo-me desse compromisso

de me ser

e sigo me (re)inventando

na eternidade

(CONTRAMARÉ, p. 23)

Sobre Teatro e Avencas

José Neres

(Professor, escritor e membro da AML)

 

         Gosto de teatro. Desde minha infância frequento teatros e ali é um lugar onde me sinto bem. Não pelo aparente glamour que algumas pessoas pensam que o ambiente exala, nem pela oportunidade de estar frente a frente com pessoas talentosas, mas sim pela possibilidade de convivência com a arte em todas as suas formas: da fluidez dos textos até a expressividade corporal, passando pelos detalhes quase imperceptíveis, pela música, pela fotografia, etc, etc, etc.

         Gosto mais do teatro ainda quando vejo a minha frente um cenário minimalista que permita aos artistas uma expressão mais vivaz de seu talento sem o desfoque de múltiplas parafernálias que, algumas vezes, servem apenas como forma de esconder as deficiências técnicas de toda uma produção. Gosto de um texto bem interpretado, com nuances e variações de voz ou vozes, em que o público possa se encantar tanto com as palavras quanto com os silêncios, com a luz, com as sombras e até mesmo com a escuridão. No teatro, como na vida, saber calar(-se) é tão (ou mais) importante do que saber falar. Daí a ideia de que silêncio também é texto e de que um bom ator fala com os olhos, com as mãos e com todo o corpo.

         Admiro artistas que sabem sincronizar sons, gestos, luzes e textos, em uma harmonia que talvez não fizesse sentido fora do palco ou no intricado e previsível roteiro chamado vida.

         Gosto de teatro e sempre que posso vou ver as peças e me encantar com o mundo mágico que é possível (re)criar por trás das cortinas, atrás das máscaras ou mesmo dentro de alegrias e de tristezas que se escondem quando todas as luzes se acendem e é hora de transpor ou umbrais da fantasia e voltar para a incômoda realidade. Claro que às vezes me decepciono, que nem sempre a peça é boa, que nem sempre os atores estão preparados para enfrentar o olhar inquiridor do público, mas isso faz parte da vida. Nem tudo pode ser bom o tempo todo.

         Nesta sexta-feira, depois de um dia inteiro de aulas, reuniões, correções de provas, engarrafamentos e de intermináveis filas, reservei parte da noite para assistir à peça Para uma Avenca Partindo, no Teatro Alcione Nazaré. Na porta do Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, uma multidão tomava conta da entrada. Desconfiei logo que deveria haver outro evento acontecendo paralelamente. Tal desconfiança não teve sopro de maldade, mas estava coberta com a confiança de saber que nosso povo não tem o hábito de frequentar teatro, principalmente quando se trata de uma produção local. Dito e feito. A bilheteria para a peça estava sem fila. Na hora da entrada, uma pequena fila se formou e, sem atropelos, todos puderam tomar seus lugares.

         Na penumbra, o experiente ator Josué Redentor, ladeado à distância pelo competente músico Evgeny Itskovich, tomavam conta de um palco em um teatro que parece eternamente em reforma. Mas isso não importava no momento. Após os primeiros acordes, o ator começou o seu monólogo, um texto do sempre citado e pouco lido Caio Fernando Abreu. O que a plateia pôde ver e sentir ao durante toda a representação foi um ator com pleno domínio da técnica vocal e da expressão corporal, seguindo as marcações cênicas que valorizaram a musicalidade, o jogo de luz mesclado com o pó impregnado no figurino, que, nos movimentos mais dramáticos, produziam um belo efeito visual para a plateia, e que sabe ocupar todos os espaços do palco, sem se perder ou se desconcentrar.

         O texto, denso, pré-marcado pela assinatura de um grande autor de nossa língua, ficou em segundo plano quando comparado com a leveza da representação muito bem dirigida por Áurea Maranhão. Os efeitos musicais, complementados pela iluminação, foram primorosos e tudo isso arrancou merecidos aplausos do público, que, infelizmente, não lotou o teatro, mas que soube aproveitar cada segundo de luz e sombra, se palavra e de silêncio.

         Como disse antes, gosto de teatro. Principalmente por ele ser constituído não apenas de paredes, palco, assentos e cortina. Mas por ele ser feito por gente capaz de causar emoção e de se emocionar com palavras que não são jogadas ao vento, e sim para outras pessoas agradecidas pela mágica presença de minutos que se tornam eternos.

         Ficha Técnica: Texto (Caio Fernando Abreu); Direção (Áurea Maranhão); atores (Josué Redentor e Evgeny Itskovich); Iluminação (Thyago Cordeiro).

 

 

PÃO, OVO E FINÍSSIMAS ESPECIARIAS DO HUMOR

José Neres

 

 

                Havia muito tempo que eu acalentava o desejo de assistir à peça Pão com Ovo, seguramente o maior sucesso de público do teatro maranhense deste princípio de século XXI. No entanto, sempre ocorria algum imprevisto que me impedia de comparecer ao espetáculo. Lembro-me que, por três vezes, ao chegar à bilheteria, fui informado de que os ingressos estavam esgotados, não apenas para aquela sessão, mas também para as próximas. Em outros momentos, em apresentações públicas ao ar livre, eu chegava quase no finalzinho do evento e só tinha oportunidade de ver a plateia ensandecida pelos risos provocado pelo trio de atores que já se despedia.

                Eis então que surge a oportunidade de ver o espetáculo por inteiro... haveria uma apresentação a poucos metros de minha casa... e em um feriado... Não havia como perder! Como a apresentação estava marcada para o início da noite, aproveitei a manhã e a tarde para resolver algumas pendências. Cerca de uma hora antes do horário previsto, desvencilhei-me dos afazeres e fui para o local do evento: uma ampla praça, com lugar para pelo menos umas duas mil pessoas. Mas, sem dúvida, havia muito mais do que isso. Eu e minha família conseguimos um lugar com boa visibilidade e esperamos...

                Sons e iluminação foram testados, alguns esquetes do programa “Tá Bom Xêrosa”, com os mesmos atores vivendo diversas situações do dia a dia foram projetados. Atento à tela, o público ria à solta, mas esperava ansiosamente pelo início da peça.

                Finalmente começou o espetáculo. A dissimulada pretensa socialite Clarice Milhomem se apresentou ao público e deu início a um verdadeiro turbilhão de bom humor. Como se tratava de uma apresentação ao ar livre, o cenário era bastante minimalista, mas o texto e os atores levaram o público a imaginar os diversos ambientes nos quais se passava o enredo: uma repartição pública, uma sala, um barzinho popular, uma choperia, etc., com diversas situações que se encaixavam para tornar-se um todo significativo, levando ao palco um pouco do vocabulário maranhense e de situações corriqueiras, mas que nem sempre são percebidas por quem vive imerso na vida maranhense.

                O texto é bastante interessante e traz como epicentro detalhes da vida do povo do Maranhão, com toques de ironia e com fortíssima carga de bom humor. Em algum momento das falas das personagens o público se identifica, e isso aumenta o grau de interação entre a plateia e os atores que dividem o palco. As fofoquinhas, as conversas politicamente incorretas, o atendimento deficiente em bares e repartições pública fazem parte do grande cardápio servido durante a representação.

                É possível perceber a sintonia entre os três atores que fazem parte da Companhia. Eles se integram de tal modo que acabam envolvendo toda a plateia no clima de alegria que emana do palco ou mesmo das intervenções feitas com a participação direta do público. A temática, por sua natureza dinâmica, permite que o texto se modifique a cada temporada ou mesmo de uma semana para outra.

                A experiência e a integração entre os atores permitem a participação deles com intensidades variadas em cada um dos episódios que compõem a peça.

               

              O Experiente César Boaes se divide entre a esnobe e caricata falsa rica Clarice Milhomem, o folgado garçom, a sonhadora doméstica e outras tantas personagens capazes de levar as pessoas às gargalhadas. Bastante técnico e intenso em suas participações, César Clarice Boaes Milhomem serve como ponto de contato entre os outros dois atores, servindo como de referência para entrada e saída das personagens e provocando situações múltiplas para o desenrolar do enredo.

                Charles Júnior, que geralmente tem participações curtas nos episódios televisivos inspirados nas personagens da peça, ganha maior importância na representação ao vivo, indo além das limitações impostas pelo bonachão Zé Maria e sua indefectível camisa do Sampaio Correia. Para quem se acostumou com os trejeitos de uma personagem quase sempre com participação simples e pontuais, o jovem ator surpreende no palco, encenando, dançando e dando um brilho especial à representação.

                Um caso à parte é o de Adeilson Santos, que na pele de sua personagem Dijé, consegue altíssimo grau de empatia com o público. As pessoas vibram quando a popular Dijé aparece e a identificação é imediata. Os gestos estabanados da personagem, juntamente com seu vocabulário extremamente popular servem como âncora para diversas cenas e situações nas quais até o mais sisudo dos seres humanos é tomado pelo riso.

                Certa vez ouvi alguém dizer que Pão com Ovo era uma boa peça, mas que era muito regionalizada para fazer sucesso fora do Estado e que em pouco tempo a fórmula se esgotaria e ficaria repetitiva. Agora que vi o espetáculo, posso afirmar que não se trata de uma simples boa peça, mas sim de um ótimo espetáculo e que, com algumas pequenas adaptações, pode ser representado em qualquer teatro do Brasil, servindo para semear em outros rincões tanto o falar quanto alguns dos costumes tão comuns no Maranhão.

(Imagens retiradas de sites da internet)

 

 

A ANGUSTIANTE ESCRITA DO DEUS

José Neres

 Urias

            Há quem defenda a tese de que a obra de Jorge Luis Borges tenha sido feita apenas para ser lida ou, no máximo, ouvida. Em seus textos densos, cheios de imagens e de referências nem sempre fáceis de detectar, o escritor argentino conduz os leitores por labirintos infinitos de palavras e de imagens e, não raras vezes, abandona-os no meio de um turbilhão de ideias nem sempre fáceis de serem digeridas por quem não esteja habituado com esse fantástico escritor.

            Então, pela densidade dos textos, muitos acreditam que os contos e poemas de Borges não aceitem versões para outras linguagens, como a teatral e a cinematográfica, por exemplo. No entanto, quando talento encontra talento, tudo pode se tornar possível.

            Urias de Oliveira, um dos mais experientes e talentosos atores da atualidade, resolveu contrariar a escrita dos homens e apostar em uma versão teatral do conto A Escrita do Deus, um dos textos do livro El Aleph, de Borges. O resultado foi um espetáculo positivamente angustiante.

            Usando um cenário minimalista, mas cheio de simbologias, Urias de Oliveira apostou na lentidão do texto, que, associado aos jogos de sombra e de luz, transmite ao público a sensação de encarceramento de que trata o texto borgeano e, ao mesmo tempo, pode levar a uma reflexão quanto aos limites do ser humano, que tanto pode estar aprisionado em um cárcere de pedra em forma de “um hemisfério quase perfeito”, quanto nas entranhas de suas próprias limitações.

            O pequeno público que foi hoje (sexta-feira) ao Teatro da Cidade não deve ter se arrependido. No palco, um ator com total domínio das técnicas cênicas, seguro em cada passagem de sincronia entre gestos, texto e luz. O corpo, as expressões faciais e a voz são as grandes armas de Urias de Oliveira na transposição intersemiótica do texto literário para a linguagem teatral. Nenhum gesto do ator foi desperdiçado durante a apresentação. Os círculos imaginários que marcam a angústia da personagem no conto se transformaram em movimentos milimetricamente calculados, seja nas passagens em que a personagem expõe seu drama, seja na presença animalesca das feras que ganham vida no talento do artista.

            Lamentável mesmo somente a ausência do público, que, talvez por falta de divulgação, talvez por falta de hábito ou vontade de frequentar os espetáculos, deixou tantos lugares vazios, mas os aplausos certamente compensaram o esforço do ator e de sua equipe. Aplausos para Urias, tanto pela coragem de enfrentar esse desafio de adaptar um texto de Borges, quanto pelo excelente desempenho em um papel tão denso.

            As poucas pessoas da plateia devem ter saído do teatro angustiadamente felizes.

 

 

 

RIMBAUD E SEUS DEMÔNIOS

José Neres

            Fazia um bom tempo que não escrevia neste espaço sobre nosso Teatro (com maiúscula mesmo). Às vezes o tempo escasso se torna um grande inimigo para quem admira as artes. Os afazeres da vida profissional nem sempre permitem que eu acompanhe os movimentos culturais de minha terra. Porém, aproveitando o ponto facultativo ofertado pelo Estado e por outra empresa onde trabalho, fui assistir à peça Rimbaudemônio no último dia desta temporada.

            Comecei com muita sorte, pois cheguei ao Centro Histórico no exato momento em que alguém saía, deixando uma preciosa vaga para estacionar o carro sem precisar correr os riscos de um deslocamento. Alguns passos, uma multidão, um show gospel e diversos conhecidos marcavam a distância entre o estacionamento e a Sala Sated (Rua da Estrela), onde aconteceria o evento.

            Na portaria, o gentil e talentoso Charles Melo, diretor da peça, recepcionava o público que, aos poucos chegava. O simples e acolhedor espaço foi ficando lotado e, pouco depois das 20 horas, teve início o espetáculo.

            O primeiro destaque é para o texto forte e seguro escrito por Celso Borges. Mesmo quem nada sabia sobre a vida e a obra do polêmico poeta Rimbaud pôde descobrir algumas nuances essenciais de sua criação poética e ao mesmo tempo entrar em contato com estratégicos fragmentos de seus poemas que dialogavam tanto com o espetáculo em si quanto com o cenário e com a plateia, que não precisava se manifestar para sentir-se como parte da peça. A inventividade do diretor Charles Melo conseguiu imprimir às cenas a tensão expressa pelo texto de Celso Borges. A correlação entre presença no palco, vídeos, falas das personagens, silêncios e jogos de luz serviu como importantes guias para quem estivesse pouco habituado com a poesia do poeta francês e com sua atribulada vida, sem contudo substituir a leitura de suas obras. A peça provavelmente instigou alguém na plateia a ler os poemas do grande poeta.

            Outro destaque vai para a perfeita atuação do ator Raimundo Reis, que demonstrou extrema segurança em todas as falas, impondo o ritmo das cenas tanto pela expressão facial quanto pelas múltiplas inflexões de voz. Em diversos momentos da representação, o ator fez a plateia ficar hipnotizada com sua atuação, cujo ponto alto se dá no momento em que, sobre uma bancada e banhado pela vermelhidão da luz muito bem projetada, encarnou com perfeição toda a angústia de seu personagem.

            A atuação de Ruan do Vale, que interpretou o poeta Rimbaud, apesar de excelente, acabou sendo eclipsada, pelo menos nesta última noite da temporada, pelo brilho emanado pelo seu colega de palco. Mesmo assim seria injusto não elogiar sua expressividade e o domínio na interpretação de um texto difícil e que deve ter exigido concentração máxima. Qualquer vacilo seu poderia comprometer a ideia principal da peça. E em momento algum ele demonstrou insegurança.

            Os dois coadjuvantes tiveram um papel importantíssimo no desfecho da trama, mas poderiam ser um pouco mais explorados no decorrer na encenação. Também demonstraram ótimo grau de concentração, embora em determinado momentos exercessem mais o papel de organizadores do cenário, quase sem outra função expressiva. Porém quando foram chamados à cena, cumpriram seus papéis com grande competência e desenvoltura.

            A sala Sated tem como característica ser bastante acolhedora e, até mesmo por conta de suas dimensões, colocar o público como cúmplice dos espetáculos. Porém, no caso desta peça em particular, a disposição de alguns elementos cênicos pode haver deixado alguns espectadores em uma posição desprestigiada, principalmente na hora das projeções, mas nada que tirasse o prazer de estar presente à encenação.

            No somatório geral, Rimbaudemônio é uma excelente peça teatral, com texto forte e tenso, atores muito bem ensaiados e com uma direção firme, competente e corajosa ao mesmo tempo. Creio que essa peça possa ser representada em qualquer palco, dentro ou fora de nosso Estado, mostrando que é possível fazer verdadeiras obras de arte com poucos recursos, grande dose de boa vontade e muito talento.

            Meus sinceros aplausos para o diretor, o autor, todos os atores e, também, para o público, que não poupou os merecidos elogios ao final do espetáculo. A satisfação estampada no rosto de cada um dos presentes mostrava que a peça foi um sucesso.

 

 

 

 

 

AMOR NEM ASSIM NEM ASSADO

José Neres

 

 

            Subir a um palco para fazer um monólogo é sempre algo muito difícil para qualquer ator, seja ele iniciante ou experiente. Sem ter falas alheias para lhe servir de gancho e tendo que, em determinados casos, assumir papéis diferentes e até mesmo antagônicos, o artista tem que ser uno e múltiplo para conseguir se desdobrar no manejo com o texto e ao mesmo tempo convencer o público.

            No Monólogo “Quando o Amor é Assim e não Assado”, adaptado do livro homônimo, de autoria de Junior Marks (Francisco José de Sousa Marques Júnior), que também é o ator/autor da peça. O texto trata basicamente da transição do mundo adolescente para o universo dito adulto, com todos os conflitos existenciais, as dúvidas com relação à sexualidade, a busca de amizades sólidas e as angústias oriundas de escolhas nem sempre bem compreendidas pela sociedade.

            O protagonista é Neto um rapaz que, passando dos trinta anos de vida, faz uma reflexão sobre eu passado e suas descobertas físicas e sentimentais, além de descobrir-se, desde a adolescência, apaixonado por um colega/amigo da escola, Hiago, que se torna o contraponto da narrativa, ajudando a compor o clima do enredo.

            O cenário é extremamente minimalista, mas o suficiente para a progressão das cenas. Os caixotes em forma de cubo, e pintados de preto, apresentam múltiplas utilidades e servem como apoio em diversos momentos da representação, ora como parte da praça de alimentação de shopping, ora como bancada para o computador, ora como suporte para as mensagens que servem como guia para o desenrolar da história.

            Como autor do livro e adaptador do texto para a linguagem teatral, o ator Junior Marks demonstrou segurança nas transições de cenas, embora tenha iniciado a apresentação um pouco mais tenso que o necessário. Mas ao longo da representação voltou a tomar as rédeas da narrativa e soube conduzir o enredo para o clímax, envolvendo a plateia com algumas excelentes tiradas e um desfecho aberto que demonstrou bastante maturidade cênica.

            De modo geral, a peça “Quando o Amor é Assim e não Assado” cumpriu com seu objetivo, que era ir além do lúdico, deixando espaço para reflexões e debates sobre temáticas variadas como, por exemplo, as relações humanas, os conflitos familiares, amizades, amores conturbados, angústias existenciais e tantas outras questões que são levantadas nas entrelinhas do texto. Trata-se de uma boa peça que pode dar margens para diversas discussões.

 

ficha técnica

AUTOR/ATOR: Junior Marks

DIREÇÃO/SONOPLASTIA: Luciano Brandão

ILUMINAÇÃO/CENÁRIO: Wallancy Nunes

FIGURINO: Bid Lima

REALIZAÇÃO: Humanitas Grupo de Teatro

LOCAL: Teatro Alcione Nazaré (X Semana de Teatro do Maranhão, 2015)

Foto: Internet

 

QUANDO AS DIFERENÇAS CAEM DE UM CÉU AZUL OU CINZA...

José Neres

 

            O adjetivo pequeno/a pode esconder muitas surpresas. Às vezes demonstra a simples noção de tamanho. Mas tamanho é algo relativo! Às vezes traz dentro de si a noção da modéstia... Mas paradoxalmente, também pode ser sinônimo de grandeza, quando alguém dá atenção ao mínimo e transforma os mais simples gestos e as mais simples palavras em arte.

            E foi isso que a Pequena Companhia de Teatro fez hoje, 10 de novembro de 2015, em uma de suas participações na X Semana do Teatro Maranhense, ao encenar a peça Velhos Caem do Céu como Canivetes, inspirada livremente em um conto de Gabriel García Márquez, intitulado Un Señor muy Viejo con unas Alas Enormes.

Em uma noite em que tudo saiu de forma irretocável: o texto, o figurino, a atuação segura dos dois atores, a iluminação a trilha sonora e o ambiente, quem foi assistir ao evento não teve do que reclamar.

O texto, adaptado pelo experiente Marcelo Flecha, traz uma profundidade que tende a levar o público a uma reflexão sobre a própria condição humana. O encontro inusitado entre um artista renegado que vive na mendicância e um ente alado, que pode ser um anjo, um demônio, uma ave ou mesmo uma representação de um outro Eu que guardamos no ponto mais recôndito do nosso ser, traz à tona diversas discussões sociais, como a fome, o lupem-proletariado, o descaso com a natureza, o papel do artista, a falta de políticas públicas, a corrupção e as constantes crises que assolam o mundo. Mas essas mensagens vêm diluídas ao longo da encenação, sem a necessidade de um panfletarismo barato ou piegas. Cabe ao público filtrar essas críticas no meio de um texto bem elaborado.

O cenário também mereceu uma atenção especial do diretor. Bem elaborado e com todos os elementos essenciais à ação dramática, ele foi além da mera ambientação e passou a fazer parte do próprio texto da consciência verbal e corpórea dos atores. Nada ficou fora do lugar ou foi usado apenas como acessório. Associado ao jogo de luz e sombra e à trilha sonora, o cenário ganhou vida a cada cena e imprimiu ao texto e à atuação das personagens uma sensação de completitude e de bom relacionamento com os demais componentes da peça.

A atuação dos atores – Cláudio Marconcine, no papel do mendigo, e Jorge Choairy, como o ser alado – foi simplesmente brilhante, explorando tanto os aspectos sonoros de sons e ritmos, como a expressão corporal e facial, sem perderem o foco do texto nem a noção do espaço de encenação. Os dois atores não demostraram afetação e demonstram estar bastante à vontade dentro da densidade de papéis que exigiam muita concentração e sincronia em movimentos extremamente difíceis. O público, que quase sempre é apático em peças de grande carga dramática e que não seja eivada de duplos sentidos, deu a resposta, aplaudindo de pé ao final do espetáculo. Aplausos mais que merecidos!

            Se o céu era azul ou cinza, é uma questão de ponto de vista, mas, no final, as pessoas mais atentas da plateia devem ter percebido que o adjetivo que faz parte do nome da Companhia, no contexto da apresentação desta noite, foi sinônimo de grandeza e de competências.

Todos estão de parabéns!!!

 

CRÉDITOS
PEÇA: Velhos caem do céu como canivetes

COMPANHIA: Pequena Companhia de Teatro

PRODUÇÃO: Kátia Lopes

ATORES: Jorge Choairy / Cláudio Marconcine

TEXTO, DIREÇÃO, CENÁRIO , ILUMINAÇÃO E FIGURINO: Marcelo Flecha

Foto: Reprodução da internet

 

 

 

CONVERSAS ENTRE QUATRO PAREDES

José Neres

 Entre Quatro Paredes

       Em postagem recente, comentei o fato de os espetáculos e lançamentos realizados em nossa cidade – quando são de autoria maranhense – não terem a devida projeção e nem mesmo serem comentados. Caem no esquecimento no dia seguinte ao evento, sobrevivendo apenas na memória das pessoas diretamente envolvidas, nas fotos, nas filmagens e na angústia de quem investiu tempo e dinheiro em uma empreitada que quase sempre se volatizará no limbo do esquecimento.

          Nossos veículos de comunicação, que são eficientes e em divulgar os resultados dos jogos – não importa a hora do final das partidas, logo depois o leitor/ouvinte/espectador tem não apenas o resultado, mas também uma resenha e até mesmo um compacto com os melhores momentos – silenciam diante dos eventos artísticos locais. Os autores, atores, cantores, músicos e diretores, quando muito, depois de inumeráveis esforço, conseguem um espaço para divulgação do evento, mas raramente uma cobertura... Mas quando o envolvido na situação é um nome de projeção nacional ou internacional, a situação parece ser bem diferente...

          O público, por sua vez, se queixa de falta de divulgação, dos ruídos de comunicação, da desorganização, dos atrasos, da situação física dos locais dos eventos, etc. Mas essa gritaria tem pouca ressonância, pois o público geralmente é reduzido mesmo. No entanto, recentemente, vi o show de um famoso cantor que frequenta a mídia nacional ser anunciado, para as nove da noite e iniciar depois de uma da madrugada. A atração maranhense, contratada para dar tempo de a “Estrela” repousar, era xingada e vaiada todas as vezes que iniciava uma nova canção. A multidão ficou  horas e horas em pé, em um lugar desconfortável, quase insalubre, mas quase ninguém ousava protestar. Quando a Estrela subiu ao palco, o povo delirou de satisfação e cantou apaixonadamente cada uma das músicas...

       Interessante é que a divulgação também não foi tão grande. Os ingressos eram relativamente caros e o local, como já disse, era péssimo. Mas quando há interesse, as pessoas sabem buscar as informações de onde e quando serão os shows. Sem contar os que têm na sua agenda os estados onde seus ídolos irão se apresentar e os acompanham em diversos shows da turnê...

       Falo isso apenas para lembrar que mais uma vez o nosso público abandonou uma boa produção local. Falo da peça Entre Quatro Paredes, que vem sendo encenada em nossa capital. Sobre o texto de Jean Paul Sartre há pouco a falar, pois ele já vem sendo discutido há décadas e é reconhecido como uma das obras-primas da dramaturgia mundial. Mas podemos dizer algo sobre a apresentação.

     Sartre  Produzida pela Cia. Direto da Fonte, com a direção do experiente Charles Melo, a peça traz os conflitos existenciais de pessoas aparentemente normais que se encontram no inferno para pagarem eternamente seus pecados. Devidamente conduzidas ao aposento pelo guia, elas começam a interagir e percebem que cada uma esconde a própria essência dos olhos alheios. Aos poucos os segredos vão se descortinando e as máscaras vão caindo e a nudez moral começa a fazer parte de um cenário cru em que os dramas existenciais superam a própria narrativa externa.

       Charles Melo optou por não fazer um espetáculo com mirabolantes inovações técnicas, apelando para a simplicidade e para a interação entre personagens, cenário e público. Ele foi sábio o perceber que o texto em si e a atuação dos atores poderia prender o público nas intrincadas malhas do enredo. Mesmo sem novidades técnicas, é possível perceber o talento e o pulso firme do diretor na marcação das cenas e nas passagens em que as representações simbólicas da memória e do distanciamento temporal se fizeram necessárias para a “visualização” dos dramas internos.

         Na pele de personagens tão complexos e até dissonantes entre si, os atores e atrizes brilharam, cada um com sua intensidade e a seu modo.

         Dividido nas funções de ator e operador de luz/som, Luciano Ferrgar, que já vi em outras peças, teve atuação discreta, mas, quando precisou aparecer, teve ótima atuação, com voz firme e expressividade no olhar, com uma mescla de brutal e irônico, sem descuidar de suas múltiplas tarefas.

       Thaylon Diniz começou tenso, mesmo por ser o primeiro “hóspede” a efetivamente aparecer em cena e ter a obrigação de conduzir o fio narrativo que tem que prender o público em uma peça sem protagonistas nem antagonistas, mas aos poucos foi incorporando a personagem e conseguiu fazer bem seu papel.

       Segura e bastante técnica, Marlucie Emily conseguiu imprimir em cena as diversas variações comportamentais exigidas por sua conflituosa personagem e ainda teve uma bela atuação nas cenas em que atua de forma secundária a fim de compor as cenas em flash-back ou de imagem psicológica.

      A atuação de Maria Itskovich foi irretocável, embora em alguns momentos tenha dado muita atenção ao alinhamento do vestuário, conseguiu fazer sua personagem crescer dentro da narrativa ao usar com maestria os jogos de expressividade vocal e dos olhares perdidos no vazio existencial exigidos pelas cenas.

    Como disse antes, embora com divulgação em jornais e compartilhamentos em redes sociais, o público, como quase sempre, resolveu não ir. A data provavelmente não foi boa, como muitos eventos paralelos e com muitas pessoas em trânsito para os interiores ou para outros estados, por conta da proximidade de um feriado prolongado. Então o pequeno espaço Sated acabou ficando gigantesco para o seleto público que apareceu na sessão a que eu fui. Espero que as outras sejam lotadas, pois o espetáculo é bom todos – produtores, atores e apoio técnico – estão de parabéns.

       Ah! E em breve começam as antigas cantilenas do “eu não fiquei sabendo”, “mas ninguém divulgou”, “Não tive tempo”... Mas quem não foi ainda tem até o final do mês para fazê-lo. E se não for mesmo, pois muitos são os motivos, quem perde é a Arte, mas acho que ela já está se acostumando com isso em nossa Ilha.

 

 

 

POESIA É CARNE, É SANGUE

José Neres

Celso Borges

 

Ontem, por conta de um grande protesto que praticamente parou uma parte da Ilha, fiquei mais de duas horas preso no trânsito e acabei perdendo um compromisso. No entanto, havia um evento que eu não queria perder: voltei para casa, fiz um breve lanche e voltei para o Centro Histórico, claro, por outro caminho. O trânsito estava tranquilo...
Comprei os ingressos e esperei os quinze ou vinte minutos de atraso que já são de praxe para o início dos eventos em nossa cidade. Mas a espera valeu a pena.
Como sempre em nossos eventos culturais que envolvam Poesia ou qualquer outro tipo de manifestação literária, o público era escasso, embora ninguém pudesse reclamar do preço do ingresso: apenas R$ 10,00. Mas tenho certeza que muitas pessoas reservaram essa quantia de olho em algumas plaquinhas de ambulantes que, a poucos metros, anunciavam “três latinhas de cerveja por dez reais”.
Começou o espetáculo! A produção era assinada pelos competentes Márcio Vasconcelos, Celso Borges e Maristela Sena. Não foi preciso pedir que o público desligasse os celulares. A belíssima voz e a perfeita apresentação performática de Áurea Maranhão, que recitou trechos do Poema Sujo, de Ferreira Gullar, fizeram com que os presentes esquecessem os aparelhos e ficassem hipnotizados pela interpretação da atriz, que soube imprimir, de forma magistral, o ritmo adequado a cada passagem escolhida. Apresentação perfeita em todos os detalhes!
A seguir, entra o poeta Celso Borges acompanhado de Isaías Alves, dando início à apresentação de “Língua Lambe Lambe”. Enquanto Celso Borges declamava/cantava seus versos, que misturavam crítica social, jogos de palavras e mistura de ritmos, o jovem Isaias, de forma discreta, dava um show particular ao sincronizar os versos e a voz do poeta com múltiplos sons que dialogavam entre si. A bela voz do poeta encontrou seu complemento na competência sonora do músico. Novamente o espetáculo conseguiu emudecer o público e os celulares. Ninguém queria perder um acorde ou uma sílaba.
Finalmente entrou no palco o poeta Diógenes Moura, que de forma impactante, sem fazer esforço além do necessário, fez uma fusão entre textos e imagens, levando todo mundo a uma reflexão sobre o nosso cotidiano. Sexo, drogas, crimes, hipocrisia e violências desfilaram pela passarela de uma prosa poética despida dos interesses meramente formais. Em silêncio, a plateia se viu utilizando as lentes de aumento da poesia e do poeta, vendo algo que pode parecer insignificante para quem já está anestesiado pelas mazelas sociais.
Fim de espetáculo. O público, em êxtase, aplaudiu. Muitos haviam guardado, trechos do espetáculo em seus celulares, que, assim como seus donos, permaneceram mudos durante as representações, em respeito aos artistas, em respeito à Poesia.